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Observando 
Sim ainda resta a esperança, sigo, meneiando a cabeça num sim. Esperança! Na espaçosa livraria, conferia alguns títulos numa das estantes logo ao canto. Havia procurado a arara com os jornais, mas como não havia encontrado no lugar habitual - quem foi que teve a ideia de mudá-la de local? - deparei-me com um livro maravilhoso que já lera anos atrás. Na verdade muitos anos atrás, emprestado por um amigo, e ainda lembro da vibração ao me passar o exemplar e tecer alguns comentários sobre a obra. "Giovanni", do novaiorquino James Baldwin, uma narrativa de amor, com personagens comuns, sentimentos à flor da pele e que muito serve para se meditar sobre; existencial, enfim. Busquei na internet esse excerto da obra que tentei lembrar-me, mas entrecortou-me: "A manhã pesa em meus ombros com o peso temível da esperança e apanho o envelope azul que Jacques enviou, rasgando-o vagarosamente em muitos pedaços, vendo-os dançar no vento, observando que o vento os leva para longe. Mas quando me viro e sigo andando para os que esperam, o vento atira alguns pedaços de volta, em minha direção". Fantástico! Logo pude perceber três adolescentes sentados dois nas poltronas e um outro no chão, bem à vontade, como se aquele fosse seu mundo. Falavam sobre coisas suas. Um deles estava folheando um livro atentamente, enquanto os outros dois amigos conjecturavam. Um deles: "Como dizia Bakunin...", o outro: "Baku...", em que o amigo explicava: "Foi na última aula, o professor comentou sobre Bakunin...". Tratei de ficar mais atento à conversa e do que falavam sobre o livro que um deles folheava; lancei um olhar sobre a capa. Uma biografia volumosa de Gracie, a qual o adolescente afirmava que leria por completo, tecendo alguns comentários superficiais sobre a trajetória do velho lutador. Deu-me um arrepio ao recordar-me de uma das poucas entrevistas a que assisti, num desses documentários de TV, pois veio-me a imagem de um ancião arraigado de preconceitos e imbuído na sua "força" imbatível, como se a força física sobrepujasse o intelecto e como o intelecto estivesse a cabo da força física. E tome preconceito e preconceito ao que me recorde. Ojerizei aquele "velho" lutador e achei-o um imbecil de carteirinha. A sua família ao que sei, caiu em desgraça e o velho se foi no alto de sua longevidade. Hoje aqueles adolescentes estavam frente a frente com a história do lutador, certamente sem saber de todo o preconceito. Saberiam aqueles adolescentes sobre preconceito? Seriam aqueles jovens preconceituosos? Observei as suas roupas, seus brinquinhos, colares, anéis e cortes modernosos de cabelo... Saberiam ao que o "velho" lutador no alto de sua "sabedoria", destilava seus preconceitos? Iriam descobrir sobre? E sorriam levemente os adolescentes, conjecturando sobre suas vidas. Cheios de vida. Larguei Baldwin na prateleira e segui por entre as gôndolas. Talvez, diante daquela juventude transbordante toda que deixara para trás com aqueles adolescentes, e assim estivesse eu chegando a ser "velho", com talvez o triplo da idade deles. Ainda pude ouvir que eles sorriam, e segui. No café, queria um chocolate quente, mas a mocinha com ar de enfado me falou que do pequeno só amargo. "Amargo bastam alguns momentos de nossas vidas", pensei. Pedi um mate gelado, mas também não dispunham e acabei por tomar um café pequeno e água. Havia um ar de estranheza naquele ambiente, quando um casal de conhecidos idosos entrou. Sentaram-se numa das mesas de canto, como se fugissem do ar-condicionado gelado e falavam muito, quando ouvi: "Devia ter vindo com meu paletó, mas a última vez que usei foi quando ainda era pastor...". Terminei meu café e dei alguns goles na água, encaminhando-me até o caixa para pagar e fui-me embora. Na minha cabeça, era como zoasse tudo de uma só vez: "Giovanni, Baldwin, Gracie, velho preconceituoso, força, mente, casal de idosos, adolescentes, paletó, pastor, chocolate amargo, café, água, vida...". Busco mais uma vez na internet a obra de James Baldwin: "Finalmente saio para a manhã, fechando a porta da casa. Atravesso a rua e ponho as chaves na caixa de correio da velha senhora. E olho para a estrada, onde estão algumas pessoas, homens e mulheres, esperando o ônibus matutino. Essa gente mostra-se muito nítida sob o céu que desperta e o horizonte mais além começa a chamejar. A manhã pesa em meus ombros com o peso temível da esperança". Ainda resta a esperança e sigo meneiando a cabeça num sim. Esperança!
Escrito por marcelo pegado às 22h41
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