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Paradoxal

 

Paradoxal, creio, como deve ser a vida

Paradoxal. Enquanto eu me me assoberbava com responsabilidades, pilhas de documentos, despachos, resoluções, malabarismos de um dia-a-dia conturbado, definições imediatas e sem brechas para erros, como tendo de ser perfeitas tal qual incisão cirúrgica, a mocinha ao lado lanchava e esboçava um certo ar de sorriso. Seria aquilo felicidade, pensei, mesmo sem tempo nem "para respirar". E continuei a minha empreitada rápida tendo que me desdobrar para tentar não errar, diante daquele contexto de seriedade. Foi quando a mocinha vendo um cd encartado numa revista, brilhou os olhos e disparou: "Que bom! Será que dá para a gente escutar esse cd agora?". Quase não acreditei no que acabara de ouvir, e por instantes, como desiludido, mirei a pilha de documentos a minha frente, como que quisessem me devorar, as horas passando rapidamente, um afã anormal naquele lugar. E a mocinha, como se nada estivesse acontecendo, queria só "escutar o cd"... Respirei fundo e tratei de dar celeridade ao trabalho, no que a mocinha foi saindo sem resposta de minha parte, mas cantarolando e sacudindo a roupa com as mãos. Uma inutilidade, pensei.  Enquanto a senhora acelera seu automóvel lentamente após o sinal abrir, um motoqueiro da pronta-entrega driblava enlouquecido no trânsito, fazendo malabarismos para avançar no asfalto; precisava chegar. E a ambulância anunciava com sua sirene ensurdecedora que precisava passar rápido. Abram caminho! Na orla um casal sentado contemplava o imenso mar, suas ondas, trocando carícias, como se ali, o mundo houvesse parado para os dois. Um bêbado falava sozinho, gesticulando muito e algumas prostitutas e travestis, disputavam tranquilamente um pedaço de esquina, na "batalha" de final de tarde, onde os surfistas deslizavam nas ondas incessantemente. Com o cansaço de todo um dia, passo pela praça onde adolescentes se utilizam de equipamentos de musculação, banhados de suor e ao ver aquela cena, quase não acredito e meus parcos músculos parecem esvanecer. Ao ler o jornal, já meio sem graça e com o enfado tomando-me, vejo na página da coluna social, muitas fotografias de risonhos colunáveis. Mas por quê será que eles riem tanto?  De quê riem tanto? Logo abaixo, três necrológicos. Logo reconheci um rapaz "de minha época de adolescente", com uma foto estmpada num "santinho", anunciando o seu sétimo dia de morte. Sim, agora, jaz morto. Passo para a página seguinte e leio a manchete: "Trabalhador é morto em assalto". Bem acima, um anúncio mostra uma fotografia de uma senhora num largo sorriso, e reporta à "Histórias de vida". Paradoxal. Agora mesmo estou de costas para a tv ligada numa emissora que transmite uma partida de futebol. Logo imagino a quantidade de pessoas que estão nesse exato momento vidrados na "telinha", e por um instante, viro-me e confiro na tv o estádio totalmente tomado, afora um comentarista que fala sem parar e eu numa vontade grande de ficar assim, bem calado. Um cachorro parece que vai ter uma síncope, latindo forte longe, mas hoje a vizinha e sua neta estão num silêncio sepulcral. Mamãe foi a uma pizzaria e eu aqui em casa estou. Paradoxal, creio, como deve ser a vida.



Escrito por marcelo pegado às 22h17
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