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Blog do marcelo pegado
 


Motivacional

Mas continuemos, pois nem muito, nem tão pouco.

Motivacional?

Havia uma certa pressa hoje pela manhã. Eu havia de chegar a um evento e só sei que num local bem perto do mar, mas numa semana atribulada, confesso que esqueci-me de concatenar onde o evento se daria. Só sei que perto do mar. E lá fui eu, tentando driblar um trânsito louco, sob um prenúncio esquisito de chuva, nuvens pesadas em boa parte do céu, como um crepúsculo em que ia aos poucos adentrando; pura sensação. Até que tive sorte pelos vários sinais luminosos abertos, esbanjando um verde sequencial. As setinhas me diziam, siga. Mas eu só sabia que ia para perto do mar, só. Foi aí que resolvi parar e fazer uma ligação para uma amiga e assim, certificar-me onde era o local que havia de chegar. Ligação feita, segui. Mais à frente muitos automóveis se aglomeravam numa única faixa, estreitando a longa avenida. Era que homens trabalhavam recortando o asfalto negro em pleno movimento das oito da manhã. Passamos todos devagar bem ao lado, e o barulho ensurdecedor da britadeira parecia fazer minha alma tremer. Eram oito da manhã. Logo cheguei no local perto do mar e parecia que há muito não o via tão imenso e lindo, pois um verde tomava a imensidão do alto e a água parecia pérolas brilhando. Contemplei o mar do alto. Lindo e imenso mar. No evento, uma grande platéia parecia absorta a escutar um palestante "motivacional". E o moço se desdobrava em jargões e mais jargões, o óbvio do óbvio, como quem diz uma única verdade. Mas afinal,  era ou não era "motivacional"? Postei-me à primeira fila, pois as cadeiras que ali estavam, ninguém as escolhera; um pouco mais atrás parecia mais seguro. Sei lá, de repente alguma interpelação. E lá estava eu, como que acompanhasse atento aquela verborragia toda a minha frente, alternada por vídeos num telão, com trechos de filmes cuidadosamente pinçados, para exemplificar situações, essas as mais diversas e inusitadas. A platéia acompanhava atenta e, acho eu, se via retratada nas cenas, se desdobrando de surpresas. Uma amiga ao meu lado falava meio sussurrando que estava era com fome. Conferi o relógio e já se aproximara das onze da manhã. Uma outra pessoa se aproximou de mim na cadeira ao lado e perguntou-me se "tudo bem". Respondi que mais ou menos, o que não foi o suficiente, creio, para conformá-la. "Por que, está doente?", disparou. Respondi-lhe que não, apenas mais ou menos... "Pois eu estou ótima, e ainda mais com uma palestra dessas", afirmara. Ao final, o rapaz fez sua propaganda do "motivacional" e encerrou sob aplausos. Em mim, nada ficou e logo pensei em montar uma palestra "motivacional, mas nem tanto". Veio-me logo uma cena do filme "A Lista de Schindler" em que uma mocinha num dos campos de concentração após uma súbita tomada de euforia, mesmo diante da desgraça em que estavam fadados todos ali confinados, com um fim trágico e sabido, se dispõe a ajudar na construção de uma das unidades prisionais, falando para o oficial que observava no alto de uma torre de vigília, que podia contar com a sua ajuda, pois era engenheira formada e especializada e tomaria a frente da construção do novo pavimento, empenhando-se, arregimentando mão-de-obra e tudo mais. O oficial parcimoniosamente adentra a cabine da guarita e, de posse de um fuzil mira a pobre coitada da moça bem no meio da testa e inclemente, dispara um balaço. A moça cai esticada e pronto. O oficial, como dever cumprido, faz um ar de sorriso. Acho essa cena imbatível pois emblemática para determinadas situações que se dão hoje em dia.  Ela com certeza estaria na minha palestra "motivacional, mas nem tanto". Pesquisarei outras, que deixem verdadeiramente todos frente a frente com mais realidade. A vida, pois, não é mesmo uma doçura, sejamos realistas. E buscarei cenas que retratem nossos enjoos diários, retrancas, caras  feias e nuances de quem não faz absolutamente nada. A prepotência dos escalões, o vexame de determinadas situações, a busca pela remuneração, pelo status quo, o cafezinho neurótico das repartições, a sineta que toca uma vez atrás da outra a cada "necessidade" do chefe, a busca pela perfeição perdida, o comodismo, a antiética, as aspirações castradas, a desorganização e a coisa viciada e viciosa, as carreiras tão malfadadas e a hierarquia bufa! A realidade na hora da fome e sede, a vontade de sumir, o cansaço e a desesperança a cada fim de expediente em que se chega em casa com a mais pura sensação de nada feito, a apatia. Talvez aí sim, tenhamos o motivacional, ao detectarmos as falhas todas, sem subterfúgos de que "podemos melhorar". Uma certa dose de ceticismo não faz mal a ninguém. Otimismo exacerbado, é idiotice pura. Mesmo porque, logo mais é segunda-feira e muitos "fantasmas" irão estar a postos. Que os enfrentemos, mas  com a certeza de que podemos temê-los. O mais é pura fantasia "motivacional", que se esquece às primeiras horas do dia. A sensação é de que a luta é grande, e por que não, muitas vezes inglória? Mas continuemos, pois nem muito, nem tão pouco. Motivacional?



Escrito por marcelo pegado às 20h39
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