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Tarde 
A serra cortando o metal continua intermitente pela tarde! Da casa de frente vem um barulho intermitente de uma serra que corta um metal. Metal no metal, eis o som. O tempo abafado prenuncia chuva e tudo parece muito tênue, ao meu ver. A vizinha que mora ao lado, deve ter saido, porque ainda hoje desde que cheguei, não ouvi a sua voz a ecoar pelos cômodos da velha moradia. A minha vizinha tem uma voz esganiçada e parece quase sempre falar sem parar, como se estivesse "possuída", alternando gritos, ritos e tudo mais que tem direito no seu lar. Ao que parece, minha vizinha é uma mulher muito só e se vale a alçar o telefone e fazer longas e desconexas ligações. Falando com quem? Sabe Deus! Já tentei compreender o que se passava, confesso, pensando se tratar de algum desespero notívago, mas não consegui entender muito bem. Acho que ela simplesmente fala sem emenda, como que se lamentando, talvez da sua solidão. Coisas da vida, diriam. Quando não, parece querer usar a água do mundo todo, aguando as suas plantas, lavando seu chão. A água jorra como devem jorrar seus pensamentos, pois só assim ela permanece em silêncio. De quando em vez, uma neta lhe tira do sério, se é que posso assim dizer e ela vocifera sempre em contestação. No silêncio da madrugada, mais parece assombro. Já cheguei no começo, a esteriotipar a minha vizinha e quando a vi pela primeira vez, foi uma sensação estranha. A imagem não condizia com o que havia figurado. Porém depois do seu olhar, não tive dúvida: "É mesmo ela", pensei. Mas foi só uma vez e a imagem permanece agora meio obscura, e só seus delírios me chegam. Hoje em dia há uma predominante separação da vizinhança, que vai muito mais além dos muros altos, cercas elétricas, grades e portões. Pois acreditem que já sei muito mais do que devia sobre a vizinha ao lado, e isso pelo fato de que me detenho a observar. Caso contrário, simplesmente não saberia. Mamãe diz com muita convicção: "Pensei que aí não morava ninguém, meu filho!", dada a sua pouquíssima audição e reclusão domiciliar. Mamãe pouco sai hoje em dia e não mais pode varrer a frente da casa como antes. Poucas vezes dá uma chegada até o portão, mas geralmente a rua está "um deserto só", como costuma falar. A verdade é que além de tudo, estamos sendo "tragados" pelos pontos comerciais; a especulação imobiliária. Somos uns poucos que sobrevivem morando por aqui, pois tudo ficou muito comercial. Outro dia andaram oferecendo uns trocados pela nossa casa, coisa de imobilíária esperta que devora tudo. Contudo não nos interessou, muito menos à mamãe que foi peremptória: "Não quero, não. Quero terminar os meus dias aqui". Certo que houve ainda muita insistência, lógico, pois o local é "ouro". E haja visitas e mais visitas e ligações sem fim. Até que um irmão "botou pra correr" o funcionário da corretora, alegando o descalabro do que ofereciam pela compra. Afinal para onde iríamos? Ao redor os prédios são erguidos do "dia pra noite". A serra continua a cortar o metal, pois certamente o trabalho tem de ser entregue no prazo. O abafado é grande e anuncia chuva muita. Penso numa canção e me vem logo "Diz Que Fui Por aí", uma composição antiga, mas bela. Talvez dar uma saída, sei lá pra onde, fosse a solução, mas penso no trânsito e desisto. A serra cortando o metal continua intermitente pela tarde!
Escrito por marcelo pegado às 15h57
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Programa 
Decidi que não quero conversar com mamãe sobre esse programa. No próximo ano, eleições A mocinha ao meu lado animada, acessa a internet e preenche o formulário de cadastro para o programa "Minha Casa, Minha Vida". Há um brilho no olhar da mocinha, que ao terminar de preencher espera a impressão com um leve sorriso nos lábios. Pronto, o primeiro passo já fora dado, então. Logo alardeia às outras pessoas que estavam na sala o seu feito, afirmando que só assim terá condições de possuir a sua casa própria, caso contrário, nem pensar. E logo todos conjecturam as informações sobre o programa, e um certo burburinho se forma. O programa do governo federal é "ousado" e visa construir 1 milhão de casas, para famílias com renda de até 10 salários mínimos. Temos um déficit habitacional de 7,2 milhões de moradias, e só no nordeste 34,3% desse montante, isso 28,5% nas regiões metropolitanas, segundo fonte do IBGE- PNDA 2007. Um aviso: caso o programa chegue a atingir uma procura superior a 400 mil pessoas, é certo que haja o sorteio de casas. Detalhes à parte, as filas se alongavam no primeiro dia de inscrição e o cadastro, preenchido à mão por enfadados funcionários, remetia a um tempo perdido. Mas a população permanecia firme, segura de estar, como a mocinha animada ao meu lado, dando o primeiro passo. Afinal, é ou não a chance? Já se ouve falar que nesse início do programa, o preço de terreno já foi às alturas. Estima-se que haverá uma especulação mais que considerável por parte dos proprietários. Mamãe ainda não comentou nada comigo, mas já deve estar achando muito boa a iniciativa do governo. Mamãe sempre demonstrou uma grande preocupação quanto à questão da moradia. "É muita gente para ter onde morar, meu filho", dizia sempre ao observar uma multidão se formar. Como vemos, mamãe tem razão e sei que vai me incentivar a me inscrever no programa do governo, certamente. "Não custa nada, meu filho...", dirá esperançosa. Mas quando eu começar a lhe explicar os pormenores, porque sempre há pormenores, saberá que não passa de mais um engodo formado. Próximo ano, eleições, pensemos. A mocinha ao meu lado guarda cuidadosamente o papel impresso na bolsa e suspira, enquanto a sala vai esvaziando. Penso em lhe falar algo, mas logo desisto, diante da sua satisfação. Como criança que se "ganha" com um doce, pensei. Afinal, não iria "estragar" aquele momento de esperança e, quem sabe, felicidade, por que não? E a mocinha voltou a sua tarefa diária de conferência dos vários processos empilhados à sua frente, um a um em movimentos mecânicos, num silêncio contemplativo. Naquele momento acho que já enveredava sonhando com a sua casa, seu "cantinho". Tomei um cafezinho doce e pensei amenizar assim as agruras da vida, mesmo que confinado naquela sala insalubre com um forte cheiro de mofo. Pensei nas imensas filas, com todas aquelas pessoas esperançosas, as famílias de "baixa renda". Pensei em mamãe achando que a sua preocupação iria ter fim, pensei na mocinha com um ar de alento no seu rosto sonhador, pensei no efeito midiático desse programa nas próximas eleições e numa folha de papel rabisquei uma casinha daquelas que costumamos desenhar na infância. Bateu-me uma desesperança e deu vontade de tomar mais um cafezinho doce. Nessa hora a mocinha se levantou e caminhou até o corredor meneando a cabeça quase infantil, cantarolando uma antiga canção. Eu, calado, naquele momento não existia. Fiquei só e decidi que não quero conversar com mamãe sobre esse programa. No próximo ano, eleições.
Escrito por marcelo pegado às 21h59
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