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Blog do marcelo pegado
 


Afinal

Foto: Internet

Mamãe deitada em sua cama mirava a água da chuva que caía do telhado

Uma sexta-feira chuvosa, que se não fosse a serra elétrica de uma construção perto, mais pareceria que o mundo havia parado. Mamãe deitada em sua cama mirava pela abertura da janela a água da chuva que caía do telhado. Cheguei perto do seu ouvido e comentei: “Vendo a chuva... Desde ontem que chove!”. Ela sorriu respondendo: “É mesmo. Hoje é dia de São Pedro, meu filho... E está frio...”.  Seus olhos continuaram mirando a água caindo do telhado. De volta ao quarto, peguei o controle da televisão e comecei a passar rapidamente os canais. Na Globo, a apresentadora Fátima Bernardes com seu sorriso de plástico entrevistava o jogador Ronaldo “fenômeno” e tudo aquilo parecia uma reprise de um velho programa. Assisti por um instante, mas nada me convenceu... A Globo vendendo ela mesma, como sempre acontece em sua programação. Triste, o garçom que não teve dinheiro para apostar em um “bolão” da sorte maior e ficou sem o prêmio... E os amigos que ganharam? Ah, os amigos... Bem, o jogador Ronaldo ainda tentou consolar: “É isso mesmo, perdi uma Copa do Mundo e estou aqui... Certas coisas servem para que continuemos com mais força, serve como lição de vida...”. Pois sim, o senhor Ronaldo, ao que tudo parece, vai muito bem, obrigado. Mas não seria melhor ter ficado calado? E o garçom com seu ar desconfiado e triste, muito triste, parecia não estar assim tão convencido. A apresentadora Fátima Bernardes até que tentou argumentar, mas acho que em vão. Afinal, devia estar com seu pensamento muito mais centrado nos índices da audiência que não andam nada bem. Perde até para programação infantil de desenhos animados... Um amigo me confidencia: “Mamãe está muito chateada porque tiraram Bob Esponja da programação!”.  Preocupante não, senhora Globo? Mas fazer o quê, se o programinha da Fátima Bernardes é muito ruim e sem nexo? Será que existe nexo “Global”? “Zapeando”, muitos são os programas evangélicos e católicos. Em busca da salvação da alma, de Deus e tudo mais. Com uma “pequena” contribuição, é claro. Os católicos são insossos. Os evangélicos insuportáveis! Então, salve-se quem puder. Nunca mais vi o programa daquele pastor das mãos enormes e pernas cambetas, que sua muito e com sua voz rouca “obra milagres” (será ele Deus, Jesus, algum profeta?) Mas existem sim, falsos profetas. Não duvido de mais nada! Só sei que depois de denúncias reiteradas por outro seguimento evangélico, de enriquecimento ilícito, esse tal pastor desapareceu. Certamente, para “dar um tempo”, não? Tem mãos enormes, pernas cambetas, voz rouca em demasia. Os “enlatados” imperam nessa manhã chuvosa de São Pedro e uma emissora insiste numa tal “Fazenda”, onde moças “bombadas” dão depoimentos vazios. Já observaram as bocas dessas moças? Creio que já temos uma legião de pessoas para mim “defeituosas” com essas intervenções plásticas... Mamãe acha horrível. Eu também. Salve São Pedro! O apresentador Amaury Jr. Ficou esquisitíssimo. “Parece um boneco de plástico, desses que assombram. Esticou muito, e está esquisito esse homem..”, argumenta mamãe ao ver o apresentador na tv. Outra que parece uma “coisa” é a apresentadora Ana Maria Braga. Ainda bem que não querem “remoçar” o irritante Louro José... Desde  ontem que chove!”. Vou até a porta do quarto e vejo que mamãe adormeceu. Velhinha, ela dorme fácil. Torço para que não sonhe com nenhum personagem desses da televisão que dão arrepios, e assim não tenha pesadelo. Lá fora vejo pela janela do quarto que a chuva continua. E penso: “Espero que lave bem, tudo!”. Saio do quarto e a televisão ainda ligada e sem som, continua com suas imagens que na realidade, não dizem nada! Programações que não dizem nada, moças que não dizem e significam nada, diálogos que não levam a nada... Afinal, Salve São Pedro!



Escrito por marcelo pegado às 00h46
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Recordando

Foto: Internet

Mamãe disse: “Deus ajuda, meu filho.”

No quarto, frente a frente com mamãe, conversávamos sobre coisas dos tempos idos. Entre uma recordação e outra, pontuávamos e íamos aos poucos descortinando fatos. A certa altura, ela lembrou-se que quando eu tinha meus dois anos apareceu uma pequena lesão no meu pé. Como eu chorava muito, o que até hoje ela não sabe o real motivo (disse achar que era dor de ouvido), tratou de levar-me a um médico. Aqui vou omitir o nome do sujeito, porque segundo ela me informa “O venal já morreu”. Ah, desgraçado! Conto porquê. Àquela época de muitas dificuldades, onde a precariedade era sinônimo de quase tudo, mas não justifica tudo, mamãe procurou um atendimento em um hospital infantil, serviço prestado pelo Estado, levando-me nos braços, já aflita. Daí que o dito cujo médico ao me consultar, diagnosticou enfático: “Acho que se trata de tétano...”, sentenciou. Sim, porque naquela época, um diagnóstico desses, era isso mesmo, uma sentença. Mamãe desesperou-se e chorou muito, conta. Como os recursos eram poucos, e o “médico” não se interessou (como podia, o venal?), voltou para casa e ela mesma tratou de mim. Dias depois, a ferida sumiu, e eu fiquei bom. Ficou observando e pronto, estou eu aqui quarenta e muitos anos vivo escutando a história. Quanto ao choro, ainda chegou a escutar de um outro indivíduo despreparado que também se  dizia médico:  “Quem tem seus loucos que internem!”. Esse desgraçado que um dia fantasiou-se de branco e deve ter feito miséria mundo afora, como fiquei sabendo, também já foi para as profundezas do inferno. Mamãe me diz com certeza que ele estava bêbado: “Ele era um homem carrancudo e cheirava a álcool, meu filho...”. Resmunguei: “Mais um desgraçado!.” Fico imaginando quantos e quantos casos desses ou bem piores não devem ter acontecido tempos atrás. É bem verdade que maus profissionais, incompetentes, figuram em todos os tempos, em todas as áreas. O que mais importa é mesmo os bons e os acima da média a que um dia recorremos. Com esse fato, fico imaginando como se conseguia ter e criar tantos filhos. Confesso que esse questionamento sempre me foi muito latente. Perguntando a mamãe, ela prontamente respondeu: “Deus ajudava, meu filho... Era tudo muito difícil, mas Deus ajudava.”  Notei que seus olhinhos miravam longe. Pois bem. Mas hoje em dia também sabemos de casos obscuros e absurdos, desses de arrepiar! Uma outra oportunidade vou contar aqui uns dez que sei, logicamente usando o necessário artifício da discrição. E pior é que os profissionais que figurarão essas histórias que mais parecem de trancoso, ainda estão vivíssimos, "aprontando" mundo afora, com a cara mais lisa, imbuídos na sublime profissão, engomados em suas vestimentas, muitas delas branquinhas. Mas resta-nos ficar com a certeza de mamãe, que acho deva ser a de muitas outras pessoas: “Deus ajuda, meu filho.” E pedir muito para que não nos deparemos com esses indivíduos malditos e inescrupulosos. Mas que chega a dar medo, chega! 



Escrito por marcelo pegado às 12h07
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Meu, minha

“Só aquilo que se foi

é o que nos pertence” (J.L. Borges)

Foto: Internet

Giroflex, grampeador, cadeira, papeis, canetas... Seria o fim...

Mentecapto nunca ousou sentar na Giroflex do gestor. Havia com ele a plena convicção de que ela não lhe pertencia, como muitas outras coisas que eram disponibilizadas para ele. Notou ao longo de anos, que outras pessoas, simplesmente se apropriavam de tudo quanto estava ao seu alcance. Havia uma mocinha meio sem brilho no rosto, que era obsessiva pelo "seu" grampeador. Um instante sequer que este não estava em cima de “sua” mesa, aí já viu: “Quem pegou o 'meu' grampeador?!”, esbravejava em estardalhaço. Outro costumava levar para casa as chaves do armário da copa, e toda vez que o funcionário da tarde chegava, encontrava tudo trancado. No dia seguinte, ao ser indagado sobre as chaves, o senhor retrucava firme: “Eu levo as chaves para o armário não ficar aberto. É uma questão de segurança.” Quando questionado da necessidade do expediente da tarde, simplesmente rebatia: “As chaves são de minha responsabilidade.” Ponto. Fazer o quê sob o olhar firme e inquestionável daquele senhor que há mais de duas décadas prestava seus indispensáveis serviços àquela instituição? Uma senhora meio espevitada não admitia quem pegasse a cadeira “dela”. Assim, ia de sala em sala, averiguando cada uma das cadeiras, as que se encontravam vazias, bem como as que estavam ocupadas. Nesse caso, pedia gentilmente que a pessoa se levantasse e passava a mão sobre o assento, pois era justamente esse que fazia a diferença: “Ele é durinho”, explicava. Quando não se tratava de “sua” cadeira, ela agradecia e seguia na busca. Porém, ao encontrar a dita cuja, pedia licença e enquanto puxava pelo encosto fazendo rolar sobre as rodinhas, de volta à “sua” mesa, ia justificando a necessidade da tal cadeira: “Encontrei, finalmente! Essa cadeira é a melhor, as outras têm o assento muito mole e deformado, fico com a bunda doendo passando o tempo todo sentada. Essa não, tem o assento durinho. É a única daqui que é  assim. Se não for ela, eu fico com a coluna que não aguento. Aí já viu, não durmo. É a 'minha' cadeira...”. A pessoa que ficasse em pé e tivesse se “apropriado” da cadeira daquela senhora, que tratasse de encontrar uma outra. Havia um obsessivo por seus lápis e papeis. E que ninguém tocasse quando deixados à mesa. O mesmo lápis, a mesma marca, e os papeis sobrepostos numa ordem estudada, provavelmente cronológica ou por assunto. Pobre da mocinha que logo pela manhã cedo limpava a sala. Tremia só em pensar que podia num deslize tocar naquele material, pois já havia sido repreendida. O lápis e os papeis ali em cima da mesa eram verdadeiros assombros e ela tratava logo de sumir daquele ambiente. Acho que o tal "dono" ficava dizendo para si mesmo todos os dias: “Meus papeis, meu lápis...”, meio que em sofreguidão...  E assim muitas outras, “donas” de suas coisas materiais. Mentecapto por um instante tentou pensar e agir como essas pessoas. Sentou-se na cadeira diante da mesa e disse baixinho: “Minha cadeira, minha mesa...”. Olhou para o computador à sua frente e pensou: “Meu computador...”, e assim foi fazendo esse exercício de posse com quase tudo que alçasse mão: “Meu lápis, meus papeis, meu copo, meu.. minha...”. Mas logo percebeu que havia uma certa mediocridade agindo assim. Riu de si mesmo, e de tantos outros, meneando a cabeça em negativa. Foi quando o silêncio fora quebrado com uma voz feminina um tanto esganiçada vinda lá de fora: “Alguém pegou a ‘minha’ caneta escrita fina azul?!...”. Como a Giroflex do gestor, Mentecapto tinha agora a mais plena convicção de que nada lhe pertencia mesmo. Ainda olhou para a caneta que estava sobre a mesa, para desencargo de consciência e teve a certeza que aquela não era pois, a caneta da pessoa que gritava no corredor. Afinal, pensou, aquela caneta era uma qualquer de tantas que já haviam estado em cima da mesa. Escrita fina, escrita grossa, azul, preta, vermelha... Que importância isso tem?... Sentia que absolutamente nada lhe pertencia, mas estava bem consigo mesmo sem esse pertencimento. Lá fora no corredor, a voz feminina continuava quebrando o silêncio, e ainda sem resposta: “Alguém pegou a ‘minha’ caneta escrita fina azul?!...”.  Era essa provavelmente uma situação de um enorme vazio, refletiu... E Mentecapto ficou quieto na sala fechada, com aquelas coisas todas passando uma a uma pelo seu pensamento: Giroflex, grampeador, cadeira, papeis, canetas... Algo parecido com o fim, ou somente um grande e tenebroso vazio? Vazio, eis a questão...



Escrito por marcelo pegado às 11h30
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Chorar

                                                                                     “Aprendi com a primavera a deixar-me cortar

                                                                                     e voltar sempre inteira.” (Cecília Meireles)

Foto: Internet

 

Pensei: mamãe... Estaria com vontade de chorar?

Observando os olhinhos miúdos de mamãe hoje nas primeiras horas da manhã, fiquei imaginando no silêncio do meu quarto (silêncio esse, só mesmo nessas primeiras horas, enquanto as duas vizinhas “enlouquecidas” com seus grunhidos estrambóticos não nos afligem os ouvidos), se estaria ou não com vontade de chorar. Sensação estranha essa de querer às vezes chorar... Uma reportagem com velhinhos, crianças com câncer, diagnósticos de moléstias incuráveis, fome no continente africano, reencontros, despedidas, pessoas as quais gostamos longe, amigos que já partiram, um dia-a-dia atribulado de coisas que só mesmo nós sabemos bem no íntimo como são difíceis e estressantes, guardando-as a sete chaves para não afligir ninguém, como uma criança ao esconder um brinquedo tão valioso para si... Tudo isso pode ser motivo para se querer chorar. Sinto que ando meio fragilizado. Penso então nas centenas de milhares de pessoas que nesse exato momento não estariam também, assim como eu, com vontade de deixar-se cair em lágrimas, sem pranto, mas em lágrimas, aquelas que vão vertendo dos olhos, e que, no entanto nos fazem mais aliviados. Sim, essa é uma sensação boa. Estaria mamãe com vontade de chorar, ou seriam somente seus olhinhos miúdos e tristes que me davam essa impressão? Não seria melhor se tivesse conversado com ela? Mas confesso, faz tempo que, devido a sua pouca audição – “Estou cada voz mais surda, meu filho...”, ela me diz - e a minha impaciência infinita aliada à ansiedade que me corrói por dentro e marca meu rosto por fora, tenho muito mais me comunicado por meio de gestos. Talvez fosse a hora de ter conversado com ela... Creio que compreende do alto de sua sabedoria. As mães costumam ser assim, sábias demais. Bem, a verdade é que o dia estava meio nublado, como já havia visto na previsão do tempo ao assistir o jornal pela madrugada, e isso poderia estar contribuindo. Previsões do tempo, sempre as acho interessantes. Umas vezes não dizem absolutamente nada, mas me dão um alento de que amanhã será outro dia. Como na canção: “Amanhã, vai ser outro dia...”.  E lá fora, logo mais, terei que encarar a vida na sua dura realidade, sem subterfúgios, sem amparos, nua e crua como ela é repleta de interesses, no afã das Giroflex macias e ágeis no rodopiar, dos gabinetes obscuros, dos favores e Poder. Digo sempre que os “pedidos” são sempre “o meu, o meu”, quase que na intolerância do outro. Mas essa questão de Poder fica para outra ocasião. O que me faz escrever agora é justamente a vontade de chorar. Uma mocinha que observei no caixa de um supermercado, tinha um olhar triste e longe. Estaria com vontade de chorar? Um rapaz esquálido que estava distribuindo panfletos no semáforo olhou-me, sôfrego ao entregar-me um papel, assim como que no “automático”. Estaria com vontade de chorar? Nos pontos de ônibus, as pessoas se engalfinham e têm um certo cansaço que as levam a esboçar ares tristonhos. Mas isso ensejaria querer chorar? Pode ser que sim, pode ser que não... Mas chorar alivia, é bem verdade. Uns bradam, outros resmungam, uns esconjuram. Porém, outros silenciam. E são esses com seus semblantes que me levam a pensar no choro. Ou na vontade de chorar. Crianças choram, digamos, naturalmente. Pessoas de muita sensibilidade choram. Quem banca sentimentos puros, também. Chorar faz parte. Dias que chovem em começo de manhã ou no final da tarde, meio a um trânsito enlouquecido, pedintes e mendigos perambulam. Confusões no ir e vir das passarelas erguidas sobre grandes e movimentadas avenidas, cheiros que se confundem: poluição, churrasquinhos de rua, milho cozido, pipoca. E uma certa insegurança que vem não sei de onde, mas que costuma atordoar. Insegurança de quê?... Meio a tudo isso, contemplei o céu e foi como se o tempo houvesse parado, como se nada existisse por alguns instantes. Voltando à realidade do plano, pensei, resmungando: “Mas o que queriam me dizer aqueles olhinhos miúdos de mamãe... Estaria com vontade de chorar? “. Uma coisa é certa, chorar muitas vezes alivia. E muito!

 



Escrito por marcelo pegado às 23h49
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Temer 

Imagem: Internet

Quando os olhos fixos parecem lançar uma interrogação sem fim

 

Mamãe certamente me diria para não temer tanto assim as coisas do mundo. Mas o que viria a ser propriamente essas ditas coisas do mundo? Bem, explico. Confesso que às vezes me dá medo, do mais inusitado ao mais provável. As pessoas me dão medo. Não o físico, mas o que pode estar por trás, ou incrustado, na mente. As nuances das pessoas nunca sabemos ao certo, no máximo, desconfiamos. Não está, pois, “escrito na testa”, como se diria no exaurido jargão. E essas pessoas que maquinam são as mais temerosas, pode acreditar. Por isso temo, e não por neurose, como coisa patológica. Elas maquinam, e mais adiante, põem para funcionar seus planos nefastos, havemos de convir, isso é fato. Alardeiam o necessário, mas silenciam o que propriamente vão pôr em prática, lâmina de um fio amolado. Temos que nos precaver, mas viver armado é muito ruim, convenhamos. Chega uma hora em que nossos sentidos se cansam, e por mais prevenidos, caímos na cilada, e parece pior esse estado de atenção constante. Agora lá na outra sala, alguém solta uma sonora gargalhada. Penso que a vida é bela. Mas logo acho que pode ser alguma “armação”, pois quantas vezes uma bela gargalhada não passa de uma carapuça?  Há pessoas que são muito taciturnas, e de uma sisudez de espantar. Conheço algumas assim, e dá um calafrio quando os olhos fixos parecem lançar uma interrogação sem fim. O olhar deixa uma dúvida no ar, e você fica um tanto sem jeito. Penetram no indizível e corre um frio enorme na coluna. Estáticos, transpaçam e ferem. É como se preciso fosse, adivinhar o que o silêncio profundo quer dizer. E será que quer dizer alguma coisa, ou simplesmente ignora? São “frios e calculistas”, diriam. Desconfiam, são até meio autoritários, soltam insinuações para conflitar, mas escondem uma falsa singeleza quando perto dos afetos como se dissessem: “estou com os meus...”. Penso que seriam como uma silhueta por trás de uma cortina dessas de plástico que protegem o banho; nunca se sabe o que realmente ali está, e deixam respingos. É uma incógnita. Saio pela manhã e mamãe me olha com aqueles olhinhos miúdos e ternos. Mamãe certamente me diria para não temer tanto assim as coisas do mundo. Mas que mete medo, ah, isso não tenho dúvida!

 

 



Escrito por marcelo pegado às 01h01
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Bumbuns e aviões       

Foto: Divulgação/internet

Bumbuns, altos e baixos, sanduíches, preconceitos e preceitos

Acabo de ler que “A porta de um avião atingiu duas residências no setor Jardim Tesouro, em Anápolis (50 km de Goiânia), no início da noite desta quinta-feira (29). Uma casa teve parte do telhado danificada, a outra não sofreu grandes danos. O incidente ocorreu por volta das 17h, cerca de um minuto depois de o avião decolar do aeroporto civil de Anápolis, que fica a menos de dois quilômetros das casas atingidas”. Aviões ainda caem. Leio também no mesmo portal, que a cantora Gretchen reclama de suposto preconceito, por estar trabalhando atualmente como garçonete em um café nos Estados Unidos.  Isso mesmo, Estados Unidos.  E a foto da cantora do “bumbum” é emblemática, de toquinha, farda, e tudo mais, empunhando um sanduíche a ser servido a um cliente, provavelmente. Mamãe já havia observado outro dia ao assistir a um desses programas de televisão chinfrim, que a cantora estava mesmo muito “esquisita”. Mamãe falou fitando a tela da televisão e apontando com o dedo: “Olha só o rosto dessa moça, meu filho... Está muito estufado. Esquisito...”. Pensei em argumentar que era devido às sucessivas plásticas e muitas aplicações de Botox, mas desisti, porque além de mamãe está sem escutar bem, ou “muito surda”, como sempre diz, não valeria à pena... Gretchen estava mesmo muito “esquisita”. Mas uma coisa é certa, entre quedas de aviões e tsunamis. O recomeçar é sempre louvável, merecedor de admiração, servindo como exemplo para quem muitas vezes até pensa em simplesmente desistir. A cantora tem razão, muita razão em tentar de todas as formas continuar no cenário difícil e competitivo da vida, seja lá como for. Afinal de contas como ela mesma argumenta: “Pague minhas contas, quite minhas dívidas e ganhe o direito de falar da minha vida". Concordemos então, que a cantora teve um arroubo de sabedoria e se superou. Se o bumbum não está mais em alta, o rosto não convence como antes, os olhos que a olham não são mais tão desejosos assim, o que fazer senão tentar outra forma, ou fórmula, não é mesmo? Sábia essa cantora que já transitou por tudo nessa vida de meu Deus. Do estrelato televisivo, a vídeos pornôs na Internet (assisti a um de arrepiar!), à política no interior de Pernambuco, e sabe-se lá mais o quê...  A mamãe, nem tenho coragem de dar tantas explicações. É melhor deixá-la só com as suas concepções. São mais leves. Afinal só acha que a cantora está “esquisita”.  E Gretchen mostrou além de tudo coragem para enfrentar a tudo e a todos. Fazer o quê? Temos que pensar muito e profundamente: e as contas? E como sobreviver nessa “selva” de pedra que é o mundo lá fora? Quem vai ajudar, se cada qual é dono de seu próprio destino? E, afinal de contas, concordemos que qualquer trabalho é mesmo digno. E a cantora mostra claramente isso. A sofreguidão dos gabinetes, o estresse de tantas outras atividades, o ócio terrível, a malandragem... Qualquer atividade, porém, é louvável, principalmente quando, indiscutivelmente, tem-se que sobreviver, não? E a vida continua. E a cantora ainda consegue estar na mídia, não pelo seu talento “bumbum” em requebros voluptuosos, mas agora empunhando um suculento sanduíche nas Américas. E os anônimos nessa mesma situação, comendo o pão que o demo amassou, que nem direito a um flashzinho têm?... Bem, o certo é que mamãe vai continuar achando Gretchen um tanto “esquisita”. Fico torcendo que mamãe não tenha me observado muito de uns tempos pra cá. Então o que haveria de achar, fitando-me com seus olhinhos miúdos e tristes?... Bem na realidade a vida é mesmo assim. Bumbuns, altos e baixos, sanduíches, preconceitos e preceitos. Afinal, se observarmos atentamente, até aviões caem. Para refletir...

* Estou quase voltando...



Escrito por marcelo pegado às 01h07
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Perdido

Coisa monstruosa que espolia a fé, inocência e a boa vontade de muitos

Perdido

Assisto à Tv e como costumo fazer, vou mudando de canal com o controle remoto. Como sempre repete um amigo, "é muita porcaria!", admitamos. Em um canal, vejo que uma senhora de rosto lívido, voz suave e tendo uma bela paisagem bucólica como cenário natural do estúdio, incentiva seus telespectadores para que contribuam com ouro, sim, com ouro campanha que tem por objetivo a conclusão de uma igreja. Logo imagens são mostradas e pelo que elas revelam, ainda falta muito. Logo, haja ouro... Pois bem, “Ajude-nos com a conclusão da obra... Envie o seu ouro para nós e seja abençoado...”, falava repetidas vezes a senhora de olhar fraternal, ao mesmo tempo em que empunhava uma caixinha branca com uma corrente e pingente enviado por um casal: “Vejam só essa contribuição... Façam como nossos amigos...”, quase que implorava a dita senhora. Num outro canal um certo pastor, aquele de mãos enormes e pernas cambetas, pregava sua verdades, com camisa suada, voz empostada, mais parecia dar ordens à plateia; muitos de olhos fechados como em transe, outros de braços levantados balbuciavam sabe-se lá o quê. E o dito pastor arrancava “testemunhos” dos fiéis. Assombrosos testemunhos... Um carregava as muletas ao caminhar apressadamente, obra do “verdadeiro milagre”, alardeado pelo pastor de mãos grandes que incitava a todos com palavras de ordem. Uma senhora que não mais precisava usar seus óculos de grau, a velhinha que não mais tinha problemas na coluna, o muito velho que estava curado do câncer... Muitos derramavam-se em lágrimas. E o pastor horrendo parecia muito convincente em suas palavras, interpretando a seu bel prazer o que lia na Bíblia. Punha suas mãos imensas sobre as cabeças dos enfermos e fazia crer na cura. Na cura. Passando de canal, quando achava que o que havia visto era o cúmulo, eis que me deparo com um tal profeta. Isso mesmo, aquele homem pançudo, de voz rouca e imperativa, se autointitulava de profeta, imaginem só! Quase não acreditei, e resolvi demorar mais um pouco para ver aquela aberração. E o profeta esbravejava milagres, repetia versículos e garantia o sucesso. Sim, era o sucesso, porque “você nasceu para brilhar”, se não me engano, era isso que aquele senhor “profetizava” no pequeno e precário estúdio de TV em hora paga. No rodapé os endereços das sedes do “profeta”. E meus pensamentos foram longe. Confesso que diante de todo aquele arsenal de estapafúrdio, cheguei a querer intervir, dizer que no mínimo, aquilo era demais, e propagar para os quatro cantos, abrindo os olhos dos crédulos em tanta barbárie. Mas me senti impotente, mesmo porque sabendo do poder televisivo, a informação que chega rápido e massifica, principalmente os mais simples e carentes... Chamaríamos de coitados? Talvez. A tarde ia prenunciando a noite e desliguei a Tv para contemplar o jardim verde e o dia lindo, impassível a tudo e a toda aquela coisa monstruosa que espolia a fé, inocência e a boa vontade de muitos. Ouro, curas, milagres... Foi quando um bem-te-vi cruzou num voo a minha frente e parou no galho da árvore. Logo seguiu seu itinerário, livre e belo, fazendo-me ver que nem tudo está perdido. A tarde parecia dar boas novas à noite. E no sábado uma lua cheia imensa vai estar no céu. Que bom, nem tudo está tão perdido assim.

 

  

 

 

 

  

 



Escrito por marcelo pegado às 17h47
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Arrepio!

Certas coisas que acontecem nessa vida. Chega a dar um arrepio!

Leio que um avião caiu em cima de uma casa em Recife, e fico imaginando certas coisas que acontecem nessa vida.  Fui no último final de semana a uma praia linda, para descansar, rever amigos, “fugir” do estresse em contato com a natureza, pois o bucólico revigora a alma e as águas do mar parecem levar o que temos de peso nos ombros para bem longe. O pôr-do-sol que mais parece uma bola de fogo indo devagar no horizonte, parece queimar nossas angústias e a brisa da noite nos acalma, o vai-e-vem das ondas que deixam o lastro de espuma na areia; a noite movida a muita e boa conversa com amigos...Tenho pra mim que a morte nesses últimos tempos tenta me alcançar com seu grilhão. Uma sensação estranha bem perto. Olho para trás, e ela com seu sorriso mórbido, assustador e sorrateiro, chega de forma inesperada e cheia de covardia. A morte parece ser covarde, ou covarde é o nosso sentimento de medo da morte? Há quem diga em alto e bom som que não teme a morte... Não esqueço uma frase: “Quem não vive tem medo da morte.” Repito quase sempre resmungando essa frase, como se ela, a morte estivesse a me escutar, atrás de uma porta, numa esquina qualquer, embaixo da cama, no corredor sombrio, na descida de alguma escada. E ela, a morte deve acho eu, ficar irritadíssima ao escutar essa frase. É profunda. Por três veze quase me alcança. A última foi nesse domingo passado, quando do acidente em que perdi o controle do carro e capotei várias vezes seguidas, indo parar esbarrando no canteiro central da BR. Um horror. E de olhos bem abertos, senti que a mão da maldita empurrava o carro com força e estupidez, mistura de sons como estrondos, meio a estilhaçados de vidros, angústia e desespero. Mas a morte pode não parecer maldita como disse, em muitos dos seus aspectos. Às vezes vem para aliviar uma grande dor por que passa alguém em vida, seus familiares na luta diária e interminável de muito sofrimento. Outras vem para mostrar algo que não se quer ver, ou simplesmente não se apercebe, coisas que pensamos insignificantes até, crêem alguns. Mas aqui pondero, pois há de ter várias explicações para tudo isso, e muito mais.Tenho visto e revisto as fotos do carro destroçado, procurando uma explicação, na calada noite em meu quarto e sinto que os pouco ferimentos doem, latejam em pulsação os dedos, a orelha e a cabeça. O ser humano sempre procura uma explicação seja lá qual for para tudo. Difícil encontrar uma que convença. Era para estar morto, não restam dúvidas...  Chega a dar um arrepio! Os olhos de mamãe estão com a profundeza de além-mar e certamente ela teria muito a me dizer, se não fosse o silêncio estabelecido e nossos curtos diálogos. Mas seu olhar me traspaça e conhece, dizendo-me absolutamente tudo. Os amigos solidários consolam: “O que importa é estar vivo...”. Concordo. E continuar vivendo passa a ser regra. Fecho os olhos e vem como um filme todo o acontecido, com riqueza de detalhes, e prefiro acordar. O sono tem sido péssimo, mas atribuo as dores dos cortes, pra não dar o gostinho de fel necessário para essa senhora morte. Fecho a janela com a sensação de que a deixei lá fora, mesmo que no corredor ao lado do meu quarto. Mera sensação, mas que me conforta no medo. Medo. Pois temo sentir a mão da maldita que só vem para embalar o fim. Mas tudo deve ter uma explicação... Leio que um avião caiu em cima de uma casa em Recife, e fico imaginando certas coisas que acontecem nessa vida. Chega a dar um arrepio! Os olhos de mamãe estão com a profundeza de além-mar, e viver parece ser a regra.

 



Escrito por marcelo pegado às 14h22
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Vislumbrar

Era como um emaranhado. E quem compreenderia?

 Da janela do corredor sombrio, Mentecapto vislumbra uma paisagem um tanto bucólica que se confunde com alguns prédios. Lá fora, chuva. Mas Mentecapto pensa que em dias que se seguirão, estará tudo resolvido. As enchentes não mais matarão, em catástrofes, os ditadores sucumbirão em terras distantes, os homens do poder não precisarão mais de salas enormes e sigilos, a vizinha do lado não mais gritará à noite quando vara a madrugada ao telefone, quem sabe sôfrega por companhia, e sua filha não mais ficará narrando com sua voz estranha, o que vê na internet do seu quarto, em intervalos de risos desconexos . Afinal, ri de quê? Na antessala a secretária já se apercebe da agonia que é o avançar das horas que mais parecem intermináveis, e a noite que vai chegando sem pedir licença, parece que a apavora. Mentecapto ainda da janela dá um suspiro, não de alívio, mas de tédio e nem sequer ensaia um sorriso falso para, sozinho, achar que vai tudo bem. Quando o vaso é quebrado, amigo, não vale remendos. Vidro riscado é para sempre, já diziam. Mentecapto está mais que ciente disso e procura atitude... Há tempo que vem procurando uma saída, mas difícil, muito difícil está sendo encontrá-la. Talvez uma outra pessoa qualquer achasse muito fácil, não estando na situação. Sente que a terapia faz muita falta... E promete a si mesmo retornar, mesmo não sabendo como e quando. Mas vai retomar. Incrível sua mãe. Tenaz, altiva, sabedora, de uma têmpera invejável. Uma rocha, apesar de seus olhos profundamente tristes. Mentecapto insiste em achar os olhos de sua mãe extremamente tristes. São os olhos, ou seria propriamente o seu olhar?... Não importa, só sabe que quando eles lhes fitam sempre dizem algo de muito profundo. Todas as manhãs, todas as noites e até, quem sabe, algumas vezes pela madrugada. Mentecapto é um ser triste, ou essa tristeza se configurou por força das circunstâncias? Eis a questão. E Mentecapto sabe que precisa experimentar uma mudança logo logo. O que será da vida de Mentecapto, suas atitudes, seus desígnios, não aqueles criados nas salas do poder, mas os que são naturais de nossas vidas? Hoje Mentecapto está repleto de indagações, com vontade de ser somente uma chuva passageira.  O rapazinho na sala ao lado cantarola sem parar. Acha por certo que tem voz boa, afinada, e que agrada. A quem? Mentecapto sempre achou que cantarolar é um modo de fuga. Só os muito leves cantarolam, em busca de fuga. Mentecapto acha que cantarolar é uma fuga. E o rapazinho continua, tentando afinar. Logo mais irá tomar cerveja. Também pudera, jovem, tem mais é que aproveitar a vida. A vida... Mentecapto está repleto de sensações. Afinal, passou a semana engasgado em sua própria sisudez e sentiu muita falta de sua terapia. Precisa voltar a sua terapia urgente. Senão, como barril de pólvora perto de fogo, explodirá! O cansaço e conjecturas vão longe e sente o corpo pedir clemência. Olha para os lados, mas como não fala, não é escutado. Sempre concluiu que as pessoas tratam exclusivamente de suas vidas. É sempre muito indignado com tudo, vê muitos “erros” e uma predominância gritante de imbecilidade em quase todos. Queria vislumbrar outras coisas. Mas Mentecapto sentia que escorreria um fel espesso pelo canto de sua boca, traduzido na insensatez cotidiana. E havia a certeza de que era muito mais profundo, era como um emaranhado. E quem compreenderia? 

 

 



Escrito por marcelo pegado às 01h42
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Missão

"Não volta sem ter produzido seu efeito, sem ter executado minha vontade

e cumprido sua missão.” “Sua missão...Sua missão...”.

Ao abrir uma agenda de 2011, Mentecapto deparou-se com uma Primeira Leitura: Isaías 55,10-11. Não que Mentecapto fosse religioso, mas estava lá e ele gostou: “Tal como a chuva e a neve caem do céu e para lá não volvem sem ter regado a terra, sem a ter fecundado, e feito germinar as plantas, sem dar o grão a semear e o pão a comer, assim acontece à palavra que a minha boca profere: não volta sem ter produzido seu efeito, sem ter executado minha vontade e cumprido sua missão.” Sentimento de que nada, absolutamente é em vão. Não só as palavras, mas as atitudes, os gestos, o olhar, o desdém. Se por um lado as palavras cumprem sua missão, esses também. De uma forma ou de outra. Há palavras que confortam, que elevam, que sustentam, que fazem com que o sorriso volte aos lábios dos incrédulos, e que a incredulidade se dissipe no momento em que se pensava que iria destruir. Há palavras que ajudam a curar, falam da força que elas têm quando bem articuladas, quando chegam no momento certo. Há palavras que comovem as que trazem algo de muito sublime. Assim acontece com os gestos, com o olhar, com as atitudes. A força que move montanhas, diriam. Mas Mentecapto bem sabe que do mesmo modo, pode todos esses atributos ter um efeito contrário quando eles vêm operar de forma diferente. “Não volta sem ter produzido seu efeito”. Isso marcou Mentecapto nessa manhã.  A chuva lá fora caia e Mentecapto só viu quando se aproximou da janela do corredor. Pôde observar o asfalto molhado e pensou: “Que bom, serve para lavar tudo”. Uma assepsia. E como era necessária uma assepsia... Mas Mentecapto precisa de mais, precisa de atitude. Ser pragmático, fazer valer sua real intenção. Sua mãe hoje pela manhã estava com ar de felicidade. Falam que essa tal felicidade são momentos na vida de cada um. Mentecapto precisa ser apresentado a ela urgentemente, mas sabe que isso passa impreterivelmente por uma atitude dele mesmo. Na sala do poder homens discutem sisudos. Caminhos e desígnios. Lá fora chovia bastante. Hoje Mentecapto viu que sua mãe estava feliz. Num gesto pediu para que não fosse incomodado com nenhuma conversa. Não queria ouvir vozes. Sua mãe então deu as costas e saiu falando baixinho: “Que pena, meu filho está muito doente...”. Mentecapto pensou em vomitar. Mentecapto pensou em dormir. Mentecapto pensou em não existir. Que pena, os homens discutem na sala, talvez os desígnios. De quem? Lá fora a chuva cai incessantemente. Mais uma vez da janela, Mentecapto contempla o asfalto negro e algumas poças de água. “Lava tudo!”, pensa Mentecapto suspirando e pensando esbravejar.  “Tal como a chuva e a neve caem do céu e para lá não volvem sem ter regado a terra, sem a ter fecundado, e feito germinar as plantas, sem dar o grão a semear e o pão a comer, assim acontece à palavra que a minha boca profere: não volta sem ter produzido seu efeito, sem ter executado minha vontade e cumprido sua missão.” Assim, nunca é demais repetir. Repentinamente, Mentecapto pensou na história e veio à mente a figura do ditador François Duvalier, o “Papa Doc”. Procurou ler sobre para avivar a memória: “Em 1957, ele instaurou um governo violento, que oprimia a população por meio de um tipo de polícia particular... Eram os tontons macoutes, ou bichos-papões”. Mentecapto pensou na sala do poder onde homens discutem sisudos. Caminhos e desígnios. Veio ao seu pensamento a chuva lá fora, o olhar e o comentário breve de sua mãe, como se fosse um embaraço. Mas terminou por optar mais uma vez pelo sono que finalmente chegava, e foi lendo repetidamente: “Tal como a chuva e a neve caem do céu e para lá não volvem sem ter regado a terra, sem a ter fecundado, e feito germinar as plantas, sem dar o grão a semear e o pão a comer, assim acontece à palavra que a minha boca profere: não volta sem ter produzido seu efeito, sem ter executado minha vontade e cumprido sua missão.” “Sua missão...Sua missão...”. Finalmente Mentecapto adormecera.



Escrito por marcelo pegado às 21h34
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Recado

Elegia 1938

Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.
Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.
Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.
Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.
Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.

Carlos Drummond de Andrade

 



Escrito por marcelo pegado às 23h40
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Fim de ano

Já pensaram em staf e poder, atribuições e nós, muitos nós para desatar? Já viu um terrível estado de estresse, desses que mais parece que a pessoa tem uma metralhadora no olhar, nas palavras, que às vezes até mesmo sorrateiras, ferem ou aniquilam? Já sentiram o cheiro ruim do estresse, que invade todo o ambiente, tornando-o pesado, sombrio, mesmo que lá fora faça um sol inclemente. E como inclementes são os ares ruins que povoam estados de estresse. Água fria, cafezinho, resignação para os cães não ladrarem. Pior é que “cão que ladra não morde”, como diz o ditado. Um perigo um cão que não ladra. Mentecapto é um cão que não ladra. Certamente vai se enchendo como um balão desses de festas. Num certo ponto, eis que estoura. Sutilmente estoura, com atitudes, tão incompreensíveis que precisa de uma longa justificativa, e mesmo assim, tende a não ser compreendido. Fazer o quê? Momento em que o silêncio corta, o olhar recíproco aniquila e a insatisfação está nos mais simples gestos. É só observar.  Alguns observam, percebem logo, outros não. Há quem olvide de atitudes. Mentecapto seria capaz de muito mais... Pensamentos povoam a sua cabeça. Pensamentos que não seria bom revelar. Há um nojo em mentecapto que a mais ferrenha ojeriza não seria compreensível. É muito mais, certamente. Mentecapto esmurraria uma parede até quebrar os dedos da mão, esfacelá-los. Mentecapto gritaria até perder a voz, vociferaria os mais terríveis insultos. Seria mesmo o tudo ou nada. Mas Mentecapto transparece serenidade. Olhando hoje pela manhã os olhos de sua mãe, olhares se cruzando, quando ela pôs seu café em cima da escrivaninha, Mentecapto pareceu um poço de singeleza. Mentecapto transparece sempre singeleza, confiança, coisa boa. Mesmo que um dia seus dedos sejam esfacelados de tanto bater em uma parede. Mentecapto pensa ter um “rombo” no estômago, como se uma bomba explodisse a cada momento de infortúnio. Mas Mentecapto parecia singelo, e sabia não ter dupla personalidade, mesmo porque já fora diagnosticado pela sua psicóloga. “dupla personalidade não, ansiedade generalizada...”, repetia sempre a terapeuta. Pois bem, que seja assim. Numa dessas manhãs, pensou pensamentos vários ao ver muita gente numa parada de ônibus... Pensamentos indizíveis... Mentecapto agora se assusta, mas naquela manhã, não. Estava tranquilo e dirigia seu automóvel. Já pensaram em staf e poder?... Quando o estresse toma conta, temos que achar subterfúgios para explicar certas situações. “Temos que tentar entender...”, avisa um amigo. Salve-se quem puder. Quem puder. Ler jornais, ver que outras pessoas têm outros ritmos de vida. Mentecapto tem o seu ritmo de vida, mas precisa de decisão. Atitude! Falta atitude para Mentecapto, que vai enchendo como o balão. Mentecapto é capaz de um silêncio profundo, de desestruturar caminhos percorridos, mas não pensa em fazê-lo. Mentecapto se assusta consigo mesmo e pensa em intensificar a terapia. Sim no próximo ano Mentecapto vai intensificar a terapia e levará esses artigos como subsídios para muitas interpretações. Não se arvorem em interpretações... Chegarão a assustar!  Amassou um pedaço de papel com muita força enquanto foi passando pela sua mente imagens de muitos momentos, pessoas, situações. Mentecapto jogou o papel retorcido no cesto, respirou fundo e disse para si mesmo que teria que seguir. Caia a tarde e tudo parecia envolto numa aura cinza.  Mentecapto teria que avaliar, e só ele poderia fazê-lo, saber se aquilo valeria à pena. Pensava que não. Mas e a atitude? Bem... Mentecapto irá enfrentar o Natal, a ceia, à noite com familiares... Mentecapto irá enfrentar o final de ano... Muitos dirão “Feliz Natal”, “Felicidades no Novo Ano”. Sorrirão, entre muitos e efusivos abraços. Algumas “lembrancinhas”, a ceia, uma noite em que quase não há reflexão, se formos analisar o encontro friamente do chamado Natal. Já o Ano Novo (?), tão carcomido, festas se darão. Mais uma vez a efusividade, os preparos, roupas, confraternizações, bolas, champanhe. Mas Mentecapto sabe bem que não pode frustrar expectativas, alegrias, sonhos, sorrisos, paz...  Hoje Mentecapto passou por um sinal de trânsito onde por entre os automóveis uma senhora muito magra e queimada pelo sol, que fica todo santo (?) dia da semana como pedinte, levava consigo, mesmo sisuda como sempre, uma cesta de Natal, dessas embaladas em papel celofane. Oh, Glória! Fim de ano, Natal... Pois bem, Mentecapto se sobreviver voltará em janeiro. E não pode frustrar nada que seja expectativa, alegria, sorrisos e sonhos... Quanto às atitudes... Na sala vizinha, a senhora que há muito deveria estar aposentada, canta, fala, graceja, suspira, frenesi total... Não seria um caso perdido de pura esquizofrenia, sofrimento, angústia, sofreguidão, imbecilidade latente? Bem, mas esse é um outro caso, creio. E Mentecapto pensa nos fracassos. Mas também pudera, já pensaram em staf e poder? Pois bem, Mentecapto se sobreviver ao fim de ano, voltará em janeiro.



Escrito por marcelo pegado às 01h07
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Almoço

O gosto do monstrengo à Parmegiana veio-lhe à boca

No almoço, as gargalhadas sonoras invadiam o ambiente do restaurante. Mentecapto esboçava um sorriso nos lábios, porém pensava deixar transparecer que achava toda aquela cena deprimente, alternando com goles de refrigerante e garfadas quase que sem vontade na comida. Era uma cena hilariante se vista de longe, como quem assiste a um filme de comédia, pois um estado de muita graça se expandia. “Era só um momento”, pensava Mentecapto. “Só um momento”. Depois, tudo voltaria à temeridade do dia, as tensões e descontentamentos, aos conluios e as risadas se transformariam, quem sabe, em intempéries. Quem sabe. E a comida descia goela abaixo com certa dificuldade, de quem sente enjoo. Na verdade, Mentecapto não sentia prazer nem naquele, nem em momento algum, fazia tempo. Muita coisa havia de errado com Mentecapto e ele sabia disso. Sua tristeza profunda estava estampada no seu rosto, e uma sensação que parecia retorcer suas entranhas o acompanhava insistentemente, o que já não era mais novidade. Às vezes sentia vontade de chorar compulsivamente. Outras, de vomitar muito, espernear, bater. Mas parecia se superar a cada momento, e até conseguia que as pessoas ao seu lado sorrissem, se sentissem à vontade, fizessem questão de tê-lo  perto. Mentecapto sabia que era muito querido. Muitas vezes assustava-se quando pessoas próximas falavam que ele estava “ótimo”. Sim,às vezes, diziam que Mentecapto estava “ótimo”... Impressões à parte, Mentecapto ficou observando quando da chegada do prato, bem servido, com seu filé à Parmegiana. O garçom, pôs uma generosa porção, e foi preciso Mentecapto acenar com a mão para dizer “basta”. Aquele prato pareceu um monstrengo, mas estava bem apetitoso. O problema era que Mentecapto não estava com nenhuma fome, e mesmo assim teria que “encará-lo”. Fazer o quê?... Foi quando o pedido da mesa 14 do casal chegou. Eram várias porções, bem generosas quanto o “monstrengo” à Parmegiana que pedira. E o casal permanecera em silêncio. A mulher se ajeitou na cadeira, pôs os pés para cima da madeira de sustentação do assento e, como sôfrega, começou a pôr muito de cada guarnição. Mentecapto resolveu parar e ficou observando aquela arrumação. Macaxeira cozida, farofa, vinagrete, arroz, feijão e uns nacos de cordeiro. Sim, Mentecapto achova que seria cordeiro assado.  O homem ao seu lado resolveu alçar mão de um pedaço com osso e como que com ânsia, começou a comer. O que chamou atenção em Mentecapto foi mesmo o prato da mulher, que a essa altura dava garfadas enormes e enchia a boca com quase tudo que pusera no prato. “Será que conseguirá respirar?...”, pensou Mentecapto, percebendo logo em seguida que a sua comida estava esfriando, devido ao ar-condicionado muito forte.  E teria que “encarar” aquele monstrengo à Parmegiana. Um senhor ao lado, filmava com uma pequena câmara as pessoas sentadas à grande mesa. Tudo levava a crer que ali se dava uma confraternização. Pelas voltas consecutivas que esse senhor dava focalizando todos, Mentecapto chegou a arriscar que terminaria tonto e poderia até mesmo cair. O domingo esmorecia pela tarde, quando Mentecapto pediu a conta, pagou e saiu depois de dar um tempo ainda observando discretamente o casal da mesa 14. Ainda sôfregos, comiam compulsivamente, e era a mulher que agora estava agarrada a um pedaço considerável do possível cordeiro assado, envolto em farofa e vinagrete. Basta. Mentecapto saiu para o estacionamento com uma sensação de estômago muito cheio e ficou imaginando como deveriam se sentir aquele casal da mesa 14, quando terminassem a refeição. A avenida lá fora mais parecia uma rua daquelas de filme de cowbói, quando iria se dar um duelo. Deserta, com poeira e uma impressão de que algo vai acontecer. Coisas que ficam na memória, certamente, mas que marcam. Mentecapto voltaria para casa e terminaria o seu dia, talvez sentindo sofreguidão, diferente, lógico, da sofreguidão e ânsia do casal da mesa 14 a comer com tanta vontade. Mas sua sofreguidão se daria muito mais pela sua condição de náusea. Sim, Mentecapto era nauseado sempre. O gosto do monstrengo à Parmegiana veio-lhe à boca. Nada de saciedade, nada de esperança, nada de nada. E Mentecapto começou a relembra o casal da mesa 14, procurando achar graça naquela cena tão inusitada. Foi quando o silêncio tomou conta do seu quarto e ele resolveu tentar dormir. Os sonhos... Bem, os sonhos, os sonhos de Mentecapto ficam para depois...



Escrito por marcelo pegado às 00h07
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Velhomundo

palavras “velho” e “mundo” aos seus ouvidos

Um senhor muito velho, dizem um dos mais velhos do Brasil, dava uma entrevista num desses canais de televisão. Mentecapto por um instante deteve-se com olhar fixo naquela imagem. “Eu não sou velho. Velho é o mundo”, disparou o senhor negro de olhos crespos e fala um tanto engasgada. Mas para seus cento e tantos anos, ainda firme. Foi quando a repórter finalizou enfatizando mais uma vez a longevidade daquele senhor. Mentecapto observou quando sua mãe passou pelo corredor estreito a caminho do quarto e teve vontade de ir ao seu encontro, fitar os seus olhos, mas se conteve ao pensar que iria contemplar um olhar triste. Pegou o violão e dedilhou alguns acordes. Pensou em escrever algo e musicar. Algo com “velho” e “mundo”. Pegou caneta e papel e entre rabiscos percebeu que nada sairia naquele momento. Frustrou-se, então, continuando a dedilhar acordes sequenciais. Pensou mais uma vez nas palavras “velho” e “mundo” e lamentou consigo mesmo não ter chamado sua mãe para comentar a reportagem da televisão. Logo veio a imagem de sua avó, caminhando até a varanda, carregando o seu crochê, livro, jornais e seu inseparável rádio de pilha. Sua avó fazia crochê, conseguia ler e ainda tinha bem perto de si, o seu rádio, sempre noticiando. Ficou imaginando a sua avó hoje em dia vivendo, com toda essa tecnologia ao seu dispor. Seria fenomenal, e certamente iria querer estar interligada à rede. “Vovó ainda tinha um sonho de comprar um carro, já velhinha, em tempos de coisas muito mais difíceis que hoje em dia”, pensou Mentecapto. E recordou que ela mesma queria dirigir o automóvel, pois nada de motorista. “Essa era vovó!”, sussurrou Mentecapto. Evangélica, aos domingos comparecia ao culto. Foi assim até não ter mais condições de se locomover. Fiel na sua crença e convicção. Morreu muito, muito velhinha. “Eu não sou velho. Velho é o mundo”, vinham aquelas palavras aos ouvidos de Mentecapto. Por um instante sentiu que o mundo podia se acabar. Uma sensação veio como de súbito. Mas na realidade, o mundo permaneceria, certamente. O que se acaba é a vida terrena dos seres que aqui estão.  A mãe de Mentecapto dorme um sono dos justos. Vive uma vida, digamos, tranquila, não fosse o próprio Mentecapto. E disso ele tinha certeza. Fazer o quê para ser de outro jeito? Fantasiar uma alegria desvairada, falar compulsivamente, inclusive de seus problemas, alegrias esperanças e desesperanças, suprir a demanda da vida sendo normal, saber que cada dia é um dia, achar beleza na segunda-feira e ter perspectivas de quando era adolescente, dizer que não se sente com mais de quatro décadas e sua cabeça é jovem, muito jovem, tomar água mineral com gás durante toda a noite e dar gargalhadas levando uma boa conversa com amigos, ser feliz, feliz, feliz, feliz?... Mentecapto copiou as palavras “velho” e “mundo” no canto da página e tentou alguns acordes. Mas a noite não estava para canções, sentiu. Desistiu, como estava acontecendo com quase tudo em sua vida, e encostou o violão. Ficou como estático mirando as imagens da televisão, enquanto o ventilador jogava um vento irritante sobre seu rosto. Foi quando viu que nunca mais havia comprado um cd sequer. O prazer estava realmente fugindo do seu “eu” e perigoso seria aceitar. Pegou novamente o violão e tocou alto uma canção. Depois deitou-se e concentrou-se para dormir. Havia de dormir, esquecer o mundo, os pensamentos ruins que povoavam sua mente. “Velho” e “mundo” eram as palavras que  soavam aos seus ouvidos, com a imagem do senhor negro e decrépto da reportagem de há pouco. Ainda levantou-se e foi até a porta do quarto de sua mãe e a observou dormindo um sono “justo”. Voltou e tratou de desligar a televisão, ficando na penumbra do quarto em silêncio, como se fantasmas existissem. Mentecapto adormecera ao som das palavras “velho” e “mundo” aos seus ouvidos. Como os próprios fantasmas fossem. No quarto ao lado, sua mãe dormia o sono dos “justos”. Dos justos.

 

 



Escrito por marcelo pegado às 23h41
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Cético

"Dias piores virão...”. Que vida!     

Dias piores virão”. Essa era uma percepção que atormentou Mentecapto por todo o final de semana. Afinal, o que seria aquela percepção aos seus ouvidos? Seria como uma premonição, mas o que de tão ruim viria a se concretizar então? Cairia doente, sofreria um acidente, perderia um ente querido, seria seu fim? Era de arrepiar o que Mentecapto sentia, como percepção. Teria dissabores no seu dia-a-dia, tudo iria tornar-se tão cinza assim, e a cólera que assola o Haiti, e o assombro de um assalto, um acidente ou desastre?... Mentecapto teve medo de dormir, de ter de enfrentar a rua no dia seguinte. Um grande medo se instalara em seus ombros impelindo-o como que para sentir o peso do mundo. Sim, aquele parecia ser o peso do mundo em seus ombros. Nada parecia ter sentido e Mentecapto aparentava desânimo, tristeza. Olhava seus olhos fixos no espelho e procurava uma resposta. Seria tudo um alto grau de ceticismo? Lembrou-se rápido do que falara certa vez sua psicóloga ao ser indagada se o considerava um cético incondicional: “Existe o cético que antes de atravessar uma avenida acha que pode se dar mal. Existe o muito cético que afirma que irá se dar muito mal. Você se enquadra assim”. Mentecapto arrepiou.  Perguntou se era bipolar, se tinha dupla personalidade, se realmente era fóbico social. Mentecapto queria saber. “Ansiosidade generalizada”, afirmou a psicóloga. Mentecapto suspirou e retrucou: “Acredito...”. Mas a sensação o assustava. Que coisa essa do assombro, ainda mais quando esse lhe repetia como num sopro: “Dias piores virão...”. O dia não iria ser bom, ainda mais que precisaria percorrer uma distância considerável a pé... Levou uma topada numa rampa de acessibilidade e teve a impressão de que alguém havia lhe empurrado. A sensação foi tanta, que olhou para trás a fim de se certificar. Todo cuidado ao atravessar a avenida. Afinal, achava sim, que se enquadrava  nos “muitos céticos”, é claro. Havia uma impressão que estava ali, lado a lado, quase de mãos dadas com ele. Mentecapto começou a repetir, como sem se sentir: “Dias piores virão...”, e logo tratou de balançar a cabeça em negativa, quem sabe assim aquela sensação desprendesse dele. Nas ruas que percorrera, notou muito lixo e diante das barreiras de acesso, pensou por instantes ser um cadeirante. Dificilmente chegaria ao seu trabalho. E uma mocinha que vestia preto passava esbaforida sob o sol. Na loja de produtos chineses, o proprietário empilhava alguns produtos. Novas imagens mostram agressão contra jovem na Avenida Paulista. Mais de 300 pessoas morrem no Camboja, esmagadas, num dos países mais miseráveis do mundo, com uma espada de samurai, ator mata mãe nos Estados Unidos. Nos Estados Unidos... E a mulher que atirou em gato porque o felino atacou seu cão. Eram matérias em apenas uma página da Internet. Mentecapto estremeceu. “Dias piores virão...”. Ao chegar em casa, livros empilhados a sua frente, logo passou a ler as colunas: “Retrato Natural”, “Adeus, China”, “A Cidade do Sol”, “Os Botões de Napoleão”, “Água Pesada e Outros Contos”... E parou fitando a última coluna: “A Vida no Limite”. Arrepiou, desviando o olhar para as fotografias no porta-retrato. Ele e a mãe. Observou que o calendário marcava o mês de novembro  e já era 24... Logo o final de mais um ano. “Dias piores virão...”. Mentecapto pensou em ler jornais, mas desistiu e deitou-se. Procurou no silêncio do seu quarto, já que a horrenda vizinha não estava com sua voz irritante – por que teria tanta ojeriza assim? E a sensação era a mesma, “Dias piores virão...”. Adormeceu e teve muitos pesadelos. Logo pela manhã...”Dias piores virão...”. Que vida!     

Lúcida em excesso (Clarice Lispector)

       “Estou sentindo uma clareza tão grande que me anula como pessoa atual e comum: é uma lucidez vazia, como explicar? assim como um cálculo matemático perfeito do qual, no entanto, não se precise. Estou por assim dizer vendo claramente o vazio. E nem entendo aquilo que entendo: pois estou infinitamente maior do que eu mesma, e não me alcanço. Além do quê: que faço dessa lucidez? Sei também que esta minha lucidez pode-se tornar o inferno humano — já me aconteceu antes. Pois sei que — em termos de nossa diária e permanente acomodação resignada à irrealidade — essa clareza de realidade é um risco. Apagai, pois, minha flama, Deus, porque ela não me serve para viver os dias. Ajudai-me a de novo consistir dos modos possíveis. Eu consisto, eu consisto, amém.”.

 

 

 



Escrito por marcelo pegado às 21h04
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