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Junina

Quero confessar que nunca gostei dessa época junina mesmo!

Quero confessar que nunca gostei dessa época junina, de suas festas, da apologia sem nexo, enfim. Agora então, numa "nova" concepção, em que tudo se confunde, tenho mesmo é ojeriza. Nesses últimos dias tenho assistido pela televisão, alguns momentos festivos direto de  cidades em que o evento tem forte apelo, muito mais comercial, do que na verdade, cultural, digamos de passagem. E a multidão aglomerada transita de lá para cá, bebe, parece feliz à procura de algo. Mas de quê? Fica minha indagação e dúvida. No grande palco montado, bandas modernosas de "forró" se revezam, fazendo soar uma música mais que sofrível, de um gosto no mínimo duvidoso, com letras vazias e melodias pobres, num apelo visual vexatório e apelativo na sua coreografia. Alguém pode me explicar? Inventaram uma tal de "metaleira" com acordes repetidos e muito mal soprados por sinal. É a festa! Hoje, desde cedo, um forte cheiro de fumaça invade os quatro cantos da casa, chegando à sensação de sufoco. Mamãe ainda há pouco postou-se à porta do meu quarto, e, já meio atordoada pela fumaça, foi pragmática e certeira: "Parece que estão incendiando o mundo, meu filho!", o que concordei, meneando a cabeça. Sem jeito a dar, caminhou para assistir a sua televisão sem som. Tempos atrás, já dancei até quadrilha junina, ajudei a organizar festinhas na rua; bandeirolas, palhas de coqueiro, balões, comidas típicas e trio de sanfona, triângulo e zabumba. Ainda bem que tudo passa! Mas devo dizer que gosto muito do milho cozido. Aqui em casa ainda fazemos na panela de pressão e nos deliciamos nos finais de tarde,  mesmo sem pretensão alguma de ser período junino. Para não dizer que não gosto de todo, faço-me lembrar de uma única vez que marcou e ficou na memória. Foi quando eu com alguns amigos nos reunimos na casa do saudoso Elino Julião, tudo muito bem elaborado pela sua Veneranda em um final de tarde/noite de muita música, verdadeiro forró, sob a guarda do sorriso de Elino que era, como nós todos, só felicidade. Momento inesquecível mesmo. Acho que depois desse dia, parece que tudo mais é uma bobagem sem fim. Não vejo hoje em dia razão de ser. Quero confessar que nunca gostei dessa época junina mesmo. E ainda bem que amanhã é outro dia!



Escrito por marcelo pegado às 23h27
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Academia

"Velho" diploma!

O STF votou pela derrubada da exigência de diploma de jornalista, uma celeuma que se arrastava havia anos. Conclusões à parte, alegou-se "liberdade de expressão". Acho particularmente que a Academia se faz necessária, pois contribui com um rol de informações pertinentes à graduação, técnicas imprescindíveis, que, quando bem usadas, lógico, sem a pretensão de alguns pedantes, servem sobremaneira para embasar o texto, sedimentando assim a informação. Quando pretenciosa de tecnicismos, por outro lado, não há quem suporte e torna-se uma mediocridade só, principalmente quando os jargões são martelados numa espécie de autoafirmação besta. Outro dia pude constatar, conversando com um aluno de comunicação, que o mesmo nada sabia do jornal de 15 anos atrás. Não havia erudição no seu aprendizado acadêmico, mesmo sob forma de informação intelectual. Falei sobre os antigos linotipos, e para minha surpresa, o estudante desconhecia, sob olhos espantados perguntando o que havia sido "isso". Tratei de lhe explicar, o qual me escutou atentamente com olhos de espanto; chumbo derretido a alta temperatura e placas de metal gravadas uma a uma para composição final, em máquinas de ferro fundido, movimentadas a manivelas e engrenagens de correntes e engates, pareceu-lhe uma coisa do outro mundo. Talvez difícil imaginar, acho eu. E da revisão - que adorava!-, e da paginação manual, e dos fotolitos, e das chapas, e da revelção, e dos fundos chapados, e dos reticulados, e das tarjas e das fotos invertidas, e da tintagem, e da maestria das dobras das chapas, e das manivelas da máquina de impressão, e do cheiro da tinta no papel, e dos enormes rolos de papel importado do Chile, e dos gazeteiros, e do encarte que mais parecia arte, e da tiragem, e do refugo, e de tantas  e tantas outras coisas assim, de um tempo atrás. Ele, coitado, pouco sabia, é verdade e acho que ficou um tanto atordoado com as informações. Para mim, uma sequência lógica e essencial, viva na memória. É certo que hoje, tudo mudado. Tecnologia de ponta e muita facilidade, sem dúvida. Mas e a erudição que faz parte? Como entender onde se chegou? "Lino o quê?". E como havia uma efervescência nas redações, um frenesi contagiante, muita vida! Hoje tudo pode parecer muito mais "frio", arrisco. Uma coisa é certa: até um embargo de declaração, como recurso à decisão do STF, de nada adiantaria, pois não conseguiria mudar o resultado. E ficou o ministro Marco Aurélio Mello, solitário no seu voto a favor do diploma para o exercício do jornalismo. E vem a questão: o que será dos cursos de comunicação daqui em diante? Creio que mesmo sem deixar transparecer, muitos jornalistas estão com certa tristeza latente. Alunos de comunicação, com futuro incerto a partir de agora. Mudar de curso, talvez. O próprio ministro Marco Aurélio, fez crer da necessidade da savalguarda no exercício do jornalismo. Umas arguições deixaram claro que na medicina há a necessidade premente da Academia, como condição uma vez que vidas estarão nas mãos dos senhores "doutores". Lembro-me de uma vez que fui a uma pequena cidade do interior. Chegando lá, ao ouvir uma reclamação de uma senhora sobre as dores nas pernas de sua filha, arrisquei tecer comentários a respeito, o que de pronto, levo-a a crer que eu era médico, pois discorri sobre a possível patologia e arrisquei uma opinião para tratamento. De tão "convincente", a senhora já animada, tratou de acionar a vinda de sua filha para que eu desse uma examinada. Logo tratei de explicar-lhe que eu não era médico coisíssima nenhuma e só falei sobre o que sabia por ouvir falar de casos semelhantes. A senhora, para o meu espanto, não acreditou e achou que na verdade, eu não queria era atender a sua filha. Outras pessoas já se enfileiravam para uma possível consulta. Uma coceira, uma dor de cabeça, falta de ar e até problemas de visão. E tive que "sumir" rapidamente daquele local. O convívio com uma irmã médica, outra enfermeira, amigos da área de saúde, e afins, me levou às informações. Aqui no "O Blog", escrevo sem a pretensão acadêmica, se é que essa existe mesmo, como fazem milhares e milhares de outras pessoas. Livres, sem precisar de explicações outras. E com muita boa vontade, ao contrário de "não ter consultado" a filha da senhora no interior e nem todas as outras pessoas que acorreram. Aqui é só escrever, livre! Mas a Academia ao meu ver é necessária, pela complexidade. Só incluiria mais erudição e um critério menos bobo de velhos e ultrapassados jargões, desses com a ridícula pretensão de se autoafirmar. Outro dia escreverei porque acho que alguns profissionais médicos se sentem "deuses". Bem, mas essa é uma outra questão. 

 



Escrito por marcelo pegado às 22h59
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Tempo

 

Um vento frio passa por mim nessa tarde chuvosa.

E o tempo urge lá fora!

Olhando uma foto minha de vinte e poucos anos atrás, vi o quanto envelheci, vinte e poucos anos depois. Quase não acreditei, apesar da fotografia está sempre ali, bem a minha frente, talvez querendo mesmo me chamar a atenção. Só dia desses me detive em pegar o porta-retrato e começar a analisar os detalhes, bem de perto, com apuro. O meu rosto, os contornos dos olhos, a minha pele, uns quilinhos a mais faziam a diferença, sem dúvida. Até mesmo o meu ar era outro, confesso. Nele não transparecia a ansiedade de hoje, como se o mundo a qualquer momento fosse ruir aos meus pés. Que sensação essa! E o meu olhar longe mirava perspectivas boas, pois vislumbrava, creio, anos muito melhores. Rapidamente alcei mão da máquina digital, me fotografei e comecei a comparação. A primeira foto, achei que não havia ficado "boa", daí, outras e outras. Mas que nada, era aquilo mesmo. Muita diferença vinte e poucos anos depois! Outro dia encontrei um amigo de há muito que não via e ele falou que para mim "o tempo parecia não passar". Imaginem só! Acho que pelo fato de não ter engordado e pela ausência até então de cabelos brancos. Pois a comparação das fotos, a de vinte e poucos anos antes e a de vinte e poucos anos depois, constatam uma outra realidade. Daí nos lançarmos às velhas teorias e jargões: "Temos mais é que viver", "São sinais de uma vida vivida", "Estou com mais qualidade de vida", "Tenho mais experiência ao longo dos anos", "Sinto-me jovem, mesmo sendo quase um idoso", "Tenho uma cabeça de vinte anos", "Não lembro-me que tenho essa idade!", coisas assim... Bem, aí são outros detalhes. Em setembro, quarenta e cinco anos! Como passa rápido. E eu que tinha tantos sonhos, hoje os vejo prementes, muitos inacessíveis, pois, sejamos realistas. E o tempo, senhor tempo, vai seguindo em frente. Envelhecer com dignidade, só? Ainda acho pouco. Haveria alguma coisa a mais, e ais a questão. Tudo parece um acúmulo mal resolvido de vida. Há uma certa pressa em viver, mas no dia-a-dia, parece que um cansaço muitas vezes nos toma. Prefere-se então, descansar. E o mundo lá fora vai caminhando na sua efervescência. Resta-me saber ao certo o que vale a pena. Feito um balanço, constato que quase nada. Mas na televisão, jornais e comentários por todas as esquinas e becos, notícias do avião que caiu recentemente vitimando centenas de pessoas. Uma declaração, dentre tantas e tantas que a mídia especula ávida por "noticiar" a tragédia, me chamou a atenção. Foi de uma mãe aflita, atenta e esperançosa, com o rosto talvez tal qual como o meu agora, que afirmou ao ser abordada pelos senhores repórteres: "Sei que o meu filho está vivo, esperando ser resgatado em algum lugar". Diante da sua angústia e dos olhares atônitos dos senhores repórteres, emendou: "E por favor, não me digam que estou louca, sou uma mãe que tem esperança de que seu filho esteja vivo". Dei mais um olhada na fotografia de vinte e poucos anos atrás, bem de perto, por sobre as lentes dos óculos e só assim lembrei-me do que me falou a oftalmologista recentemente ao indicar-me lentes bifocais, modernas e caras: "Quando se chega a uma certa idade, mais avançada, torna-se necessário quase sempre o uso das lentes bifocais". Ao perceber que houve a constatação de minha idade em suas palavras disse complacente: "Assim como eu, que as uso", amenizando o impacto, referindo-se às lentes dos seus óculos. Deixei o porta-retrato na estante e ainda fui mirar-me no espelho. Até que me convenci por alguns instantes que era isso, o tempo, a vida! Mas prometi passar um bom tempo sem olhar mais detalhadamente aquela foto de vinte anos atrás. Quem sabe, para que acredite que terei pelo menos, mais vinte e poucos anos à frente. Pela janela do quarto um vento frio passa por mim nessa tarde chuvosa. E a constatação rápida, como um estalo: o tempo urge lá fora!



Escrito por marcelo pegado às 14h03
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Mudar 

E talvez a cada entardecer, sussurrem ao

vento: como tudo mudou!

Como é difícil mudar! Estive pensando que há mais de quarenta anos moro na mesma casa, mesma rua, mesmo ares. Pessoas várias, antes mais, hoje nem tantas por perto. Vizinhos não posso mais considerá-los, senão pelo fato de morarem em casas próximas. No entanto, lembro-me de muitos outros, visitas, cumplicidades naturais de cotidianos um tanto comuns, talvez, algumas cordialidades diárias; chamáva-mos pelos nomes, abreviaturas ou leves codinomes suaves, como suaves eram as relações. Às vezes recorríamos até a pedir um pouco de pó de café ou açúcar, quando faltava em determinadas horas, o jornal era compartilhado sempre após o meio dia, quando a vizinha já o lera. Até, lembro-me bem, a hora eu costumava perguntar a essa mesma vizinha, que de pronto, firmava os olhos no grande e belo relógio de parede, com seu pêndulo incansável em seu balanço e falava horas e minutos precisos. Uma longa conversa ao portão no final de tarde e começo de noite, uma carona, um prato de iguaria na época junina, o qual só era entregue de volta, com uma outra gentileza posta. Preocupações divididas, quase vidas em comum, nos víamos ao final do ano, no Natal, nos aniversários, casamentos e afins. Mas tudo vai passando e as coisas mudam. Como é difícil mudar! E aí, novas pessoas, ostilidades parecem chegar junto, cordialidade não mais se encontra, cada um na sua, e os velhos vizinhos desaparecem gradativamente. Uns, morrem. Outros simplesmente trilham por outros caminhos.  Fica a a lembrança, pois. Hoje conto nos dedos os poucos que "sobraram", raramente nos vemos, mas creio que ainda há um resquício do que foi em cada um, isso sentido quando nos falamos de quando em vez. Parece que aquela antiga unidade ainda persiste. Lembro-me de absolutamente todas as pessoas de pelo menos trinta anos pra cá. Velhos, novos, histórias, alegrias e tristezas. Sim, porque essas sempre hão de existir. Lembro-me de uma antiga quadra na confluência das três ruas, da mangueira imponente, do esperto faz-tudo que quase que vivia embaixo de sua sombra, e, ao que me consta, foi o primeiro administrador que conheci. Nunca fez grandes esforços. Franzino e quase sempre bêbedo já no final de tarde, sempre ao empreitar serviços, arregimentava mão-de-obra para executá-los, assim, verdadeiramente, administrando-os. Pitava seu surrado cachimbo numa suave complacência, como que arquitetasse o seu próximo passo e se relacionava com todos, chamando-os sempre de "patrão". Ele mesmo era assim chamado. Só depois de muitos anos, por ouvir sua mulher chamá-lo pelo nome, soube que era Cícero ou "Ciço", melhor dizendo. Mas tudo passa, tudo muda, como bem sabemos. E como é difícil às vezes essas mudanças. Ainda lembro-me muito da antiga vizinha do lado que ao meu ver ia terminar seus dias como nós aqui de casa, morando na mesma rua. Simplesmente arrumou as malas e partiu. Voltou uma vez e como despedida definitiva, conversou e abraçou-nos. Definitivamente, partiu. Dizem que mora agora em São Paulo. E mudanças acontecem, muitas vezes não deixam nem rastro. Essas são talvez as mais dolorosas, quando se parte. Leio que "A resistência é um fenômeno natural, ligado a todo processo de mudança". Mamãe resistiu e aqui ficou e lá se vão mais de sessenta anos. Grossas paredes, arquitetura antiga, telhado interessante de telhas inglesas essa nossa casa. Aqui permanecemos sob o mesmo teto, na mesma rua, creio que resistindo. E mais: " A incerteza sobre o futuro gera insegurança". Como é difícil mudar! E aqui continuamos, eu, mamãe, alguns outros poucos vizinhos que restaram, com tudo o que mudou. Ontem pude contemplar dois ipês, um amarelo e outro roxo, que se postam no morro que circunda o bairro. Eles estão lá na sua beleza, como que na espreita a todos nós, a tudo isso. E penso que talvez a cada entardecer, sussurrem ao vento: como tudo mudou. Como é difícil mudar!

*Citações in: Administração - Noções gerais (Leandro Lamas Valarelli)



Escrito por marcelo pegado às 17h57
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Volta

Depois de um bom tempo, amanhã estarei de volta!

E para refletir até lá:

Corrigir uma página é fácil, mas escrevê-la, amigo, isso é difícil
( JORGE LUIS BORGES )



Escrito por marcelo pegado às 23h06
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Missiva*

 

 Ter conhecido Terezinha de Jesus e em breve poder revê-la.

Ela é maravilhosa!

Recebi dia desses, um e-mail de um leitor chamado Paulo Silvio, que acabara de "descobrir" O Blog, quando estava à procura de Terezinha de Jesus. "É que estou fazendo um trabalho em MP3 sobre a obra do grande Zé Ramalho cujo um dos hits é justamente "Amar quem eu já amei", que, através da pesquisa, descobri ter sido gravada, em primeira mão, pela Terezinha", relata Paulo, que afirma ter questionado na página do cantor paraibano este ter convidado a baiana Ivete Sangalo e não a cantora potiguar para a gravaçao da canção, num desabafo louvável, o qual, me incluo. Particularidades à parte, pois sabe-se lá o que levou o paraibano Zé Ramalho a preterir Terezinha, o amigo Paulo pede-me notícias da nossa Terezinha de Jesus, "o que ela anda fazendo, uma foto atual", coisas assim. Caro Paulo, confesso que já faz algum tempo que não vejo e nem tenho notícias de Terezinha. A última vez que a encontrei, ela acabara de se mudar da Rua Pinto Martins, indo morar no Conjunto Ponta Negra. À época quando conversamos, falou da nova morada, uma casa ampla, mas deixou no ar que sentiria sim, saudades dos ares da sua antiga morada, da proximidade mais que próxima do mar e da "facilidade" de estar presente com os amigos na noite, de vez em quando. Sábado passado escutei muito Terezinha, seus dois CD's "prontos" a partir de antigos vinis, uma ideia do genial Falves. Canções e mais canções, numa voz doce, com participações de Paulinho da Viola, Dominguinhos e Odaíres. Uma viagem boa no canto maravilhoso de Terezinha. "Cigano", Vento Nordeste", Fogo Fátuo", "Coração Imprudente". E lá se vão trinta anos desde o seu primeiro lançamento. Por aqui, nessa cidade meio ou quase sem memória, nenhuma homenagem, lembrança não há, o que vociferei a um amigo, indignado! Mas, sozinho e parecendo que para quatro paredes, não ecoou. Decidi por escutar mais um pouco suas canções, então, lendo e relendo suas dedicatórias a mim: "Para o novo amigo carinhoso e musical que adorei conhecer". Terezinha é mesmo um doce e o seu olhar traduz muito mais; sua voz e interpretações vão além! Bateu-me uma saudade grande... Vou tentar contactá-la e se conseguir, enviarei o material que você, caro Paulo, me solicitou. No mais, é agradecer por ter acessado a minha página, um grato encontro e louvar pelo trabalho de compilação que está realizando. No mais, é agradecer por ter conhecido Terezinha de Jesus e em breve poder revê-la. Ela é maravilhosa!

*Recado ao leitor Paulo Silvio



Escrito por marcelo pegado às 22h55
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Dia

Fico então com o apelo da "jogada de marketing". Só! 

Não sei bem o que significa "Dia das Mães". Fico com a assertiva de que esse dia nada mais é, do que uma "jogada de marketing". Precisa-se vender, então. E o comércio realmente faz jus a esse dia, com um grande fluxo de pessoas correndo para comprar a lembrancinha da mãe. Outros, já meio renitentes, preferem alegar que o Dia das Mães são todos os dias, não vendo necessidade alguma de especificar um segundo domingo de maio. Polêmicas à parte, o último domingo foi o "Dia das Mães", com lembrancinhas, declarações do mais puro amor, do almoço tradicional, que lota restaurantes, como que as pessoas partissem para se digladiarem à espera de uma mesa, às vezes, horas a fio. Mas é Dia das Mães e para levar a progenitora para almoçar, cabe todo carinho. Umas mamães são mais caseiras e o almoço reúne todos à mesa em seus lares, regados a sorrisos e muito amor. Soube que os shoppings registraram filas e filas enormes e conseguir sentar-se era como conseguir ganhar um prêmio grande. Afinal, era o Dia das Mães. No sábado, um dia antes, coincidiu de ver mamãe. Antes havia ido ao supermercado e lembrei-me da sua reclamação outro dia com o ferro de engomar, que estava manchando as minhas camisas com uma espécie de tirna preta. Resolvi então comprar um novo ferro e presenteá-la. Só depois dei conta que o Dia das Mães era logo no domingo seguinte. Cheguei com um embrulho em papel vermelho e antes mesmo de lhe "presentear", ela, ao ver o pacote, sentenciou: "Já sei, é um ferro, não é?". Acho que mamãe já teve vários ferros de engomar, de praticamente todos os modelos e marcas. Relembrei com ela e com um amigo próximo a quantidade de geladeiras, fogões, máquinas de lavar que já possuíra, perdendo a conta, o que lembrou: "Até umas duas máquinas de lavar louça, se não me engano. Só que nunca gostei dessas máquinas!". Mamãe desembrulhou a caixa e conferiu o ferro elétrico. "Desses já tive alguns", falou. Ainda expliquei a ela algumas funções, disse que agora iria ser mais fácil engomar as minhas camisas sem manchá-las com a tirna preta, no que ela prontamente concordou. Terminei por ficar para almoçar naquele sábado. No domingo, Dia das Mães. Mamãe conjecturou muito, como se houvesse uma necessidade reprimida. Depois fui-me, deixando para trás mamãe, o seu presente, a casa, e segui antecedendo o dia de domingo. Logo mais à tarde iriam chegar os netinhos, outros filhos, e afins para uma comemoraçãozinha, mas não pude ficar. Em mim a sensação de ter vivido, mesmo antecipadamente naquele sábado um Dia das Mães. E olhe que completo, pois com direito a lembrancinha, almoço e tudo mais. Só não declaração apaixonada. Essa ficou de lado. O domingo mesmo foi longo e sem graça e a segunda se prenunciava como um dragão a cuspir labaredas de fogo. Era pois, o início da semana. Para muitos, vivi um dia comemorativo. Para mim, nada demais, pois não sei mesmo o que significa o tal "Dia das Mães". Fico então com o apelo da "jogada de marketing". Só! 



Escrito por marcelo pegado às 21h37
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Tarde

A serra cortando o metal continua intermitente pela tarde! 

Da casa de frente vem um barulho intermitente de uma serra que corta um metal. Metal no metal, eis o som. O tempo abafado prenuncia chuva e tudo parece muito tênue, ao meu ver. A vizinha que mora ao lado, deve ter saido, porque ainda hoje desde que cheguei, não ouvi a sua voz a ecoar pelos cômodos da velha moradia. A minha vizinha tem uma voz esganiçada e parece quase sempre falar sem parar, como se estivesse "possuída", alternando gritos, ritos e tudo mais que tem direito no seu lar. Ao que parece, minha vizinha é uma mulher muito só e se vale a alçar o telefone e fazer longas e desconexas ligações. Falando com quem? Sabe Deus! Já tentei compreender o que se passava, confesso, pensando se tratar de algum desespero notívago, mas não consegui entender muito bem. Acho que ela simplesmente fala sem emenda, como que se lamentando, talvez da sua solidão. Coisas da vida, diriam. Quando não, parece querer usar a água do mundo todo, aguando as suas plantas, lavando seu chão. A água jorra como devem jorrar seus pensamentos, pois só assim ela permanece em silêncio. De quando em vez, uma neta lhe tira do sério, se é que posso assim dizer e ela vocifera sempre em contestação. No silêncio da madrugada, mais parece assombro. Já cheguei no começo, a esteriotipar a minha vizinha e quando a vi pela primeira vez, foi uma sensação estranha. A imagem não condizia com o que havia figurado. Porém depois do seu olhar, não tive dúvida: "É mesmo ela", pensei. Mas foi só uma vez e a imagem permanece agora meio obscura, e só seus delírios me chegam. Hoje em dia há uma predominante separação da vizinhança, que vai muito mais além dos muros altos, cercas elétricas, grades e portões. Pois acreditem que já sei muito mais do que devia sobre a vizinha ao lado, e isso pelo fato de que me detenho a observar. Caso contrário, simplesmente não saberia. Mamãe diz com muita convicção: "Pensei que aí não morava ninguém, meu filho!",  dada a sua pouquíssima audição e reclusão domiciliar. Mamãe pouco sai hoje em dia e não mais pode varrer a frente da casa como antes. Poucas vezes dá uma chegada até o portão, mas geralmente a rua está "um deserto só", como costuma falar. A verdade é que além de tudo, estamos sendo "tragados" pelos pontos comerciais; a especulação imobiliária. Somos uns poucos que sobrevivem morando por aqui, pois tudo ficou muito comercial. Outro dia andaram oferecendo uns trocados pela nossa casa, coisa de imobilíária esperta que devora tudo. Contudo não nos interessou, muito menos à mamãe que foi peremptória: "Não quero, não. Quero terminar os meus dias aqui". Certo que houve ainda muita insistência, lógico, pois o local é "ouro". E  haja visitas e mais visitas e ligações sem fim. Até que um irmão "botou pra correr" o funcionário da corretora, alegando o descalabro do que ofereciam pela compra. Afinal para onde iríamos? Ao redor os prédios são erguidos do "dia pra noite". A serra continua a cortar o metal, pois certamente o trabalho tem de ser entregue no prazo. O abafado é grande e anuncia chuva muita. Penso numa canção e me vem logo "Diz Que Fui Por aí", uma composição antiga, mas bela. Talvez dar uma saída, sei lá pra onde, fosse a solução, mas penso no trânsito e desisto. A serra cortando o metal continua intermitente pela tarde! 



Escrito por marcelo pegado às 15h57
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Programa

Decidi que não quero conversar com mamãe sobre esse programa.

No próximo ano, eleições

 A mocinha ao meu lado animada, acessa a internet e preenche o formulário de cadastro para o programa "Minha Casa, Minha Vida". Há um brilho no olhar da mocinha, que ao terminar de preencher espera a impressão com um leve sorriso nos lábios. Pronto, o primeiro passo já fora dado, então. Logo alardeia às outras pessoas que estavam na sala o seu feito, afirmando que só assim terá condições de possuir a sua casa própria, caso contrário, nem pensar. E logo todos conjecturam as informações sobre o programa, e um certo burburinho se forma. O programa do governo federal é "ousado" e visa construir 1 milhão de casas, para famílias com renda de até 10 salários mínimos. Temos um déficit habitacional de 7,2 milhões de moradias, e só no nordeste 34,3% desse montante, isso 28,5% nas regiões metropolitanas, segundo fonte do IBGE- PNDA 2007. Um aviso: caso o programa chegue a atingir uma procura superior a 400 mil pessoas, é certo que haja o sorteio de casas. Detalhes à parte, as filas se alongavam no primeiro dia de inscrição e o cadastro, preenchido à mão por enfadados funcionários, remetia a um tempo perdido. Mas a população permanecia firme, segura de estar, como a mocinha animada ao meu lado, dando o primeiro passo. Afinal, é ou não a chance? Já se ouve falar que nesse início do programa, o preço de terreno já foi às alturas. Estima-se que haverá uma especulação mais que considerável por parte dos proprietários. Mamãe ainda não comentou nada comigo, mas já deve estar achando muito boa a iniciativa do governo. Mamãe sempre demonstrou uma grande preocupação quanto à questão da moradia. "É muita gente para ter onde morar, meu filho", dizia sempre ao observar uma multidão se formar. Como vemos, mamãe tem razão e sei que vai me incentivar a me inscrever no programa do governo, certamente. "Não custa nada, meu filho...", dirá esperançosa. Mas quando eu começar a lhe explicar os pormenores, porque sempre há pormenores, saberá que não passa de mais um engodo formado. Próximo ano, eleições, pensemos. A mocinha ao meu lado guarda cuidadosamente o papel impresso na bolsa e suspira, enquanto a sala vai esvaziando. Penso em lhe falar algo, mas logo desisto, diante da sua satisfação. Como criança que se "ganha" com um doce, pensei. Afinal, não iria "estragar" aquele momento de esperança e, quem sabe, felicidade, por que não? E a mocinha voltou a sua tarefa diária de conferência dos vários processos empilhados à sua frente, um a um em movimentos mecânicos, num silêncio contemplativo. Naquele momento acho que já enveredava sonhando com a sua casa, seu "cantinho". Tomei um cafezinho doce e pensei amenizar assim as agruras da vida, mesmo que confinado naquela sala insalubre com um forte cheiro de mofo. Pensei nas imensas filas, com todas aquelas pessoas esperançosas, as famílias de "baixa renda". Pensei em mamãe achando que a sua preocupação iria ter fim, pensei na mocinha com um ar de alento no seu rosto sonhador, pensei no efeito midiático desse programa nas próximas eleições e numa folha de papel rabisquei uma casinha daquelas que costumamos desenhar na infância. Bateu-me uma desesperança e deu vontade de tomar mais um cafezinho doce. Nessa hora a mocinha se levantou e caminhou até o corredor meneando a cabeça quase infantil, cantarolando uma antiga canção. Eu, calado, naquele momento não existia. Fiquei só e decidi que não quero conversar com mamãe sobre esse programa. No próximo ano, eleições.



Escrito por marcelo pegado às 21h59
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Primoroso

CD de Fernanda Takai: para ser tocado e fazer tocar, pois, irretocável.

É preciso tê-lo!

Um CD produzido por John Ulhoa, com direção artística de Nelson Motta, onde estão compiladas treze canções, reportando a uma das maiores intérpretes da nossa bossa nova, Nara Leão. Esse é o álbum solo da cantora Fernanda Takai, "Onde Brilhem os Olhos Seus". Uma gratíssima surpresa no mercado fonográfico, de uma cantora de voz singular que até então havia trilhado o caminho mais "pop" da nossa música brasileira. Já havia escutado algumas faixas e, confesso, logo me apaixonei pela musicalidade e o algo de "diferente" na proposta de melodias suaves, de "encaixe" de voz, de sonoridade e arranjos bem elaborados que chegam bem aos ouvidos. Uma Fernanda Takai plena, sem os subterfúrgios do ter que enveredar pelo simples e desaguar no óbvio. Bem, o Pato Fu, é outra história. Mas quero me deter nesse álbum  de primeira linha; acertado. A começar pela apresentação gráfica assinada por Andrea Costa Gomes, numa produção de Bete Oliveira, que imprime a marca do mais absoluto bom gosto. Daí, é levar em consideração os arranjos equilibrados e com um "toque" especial de John Ulhoa e Lulu Camargo, o primeiro na guitarra, baixo, violão, teclados programação e voz, e o segundo ao piano, teclados, programações e auxílio de voz. Isso cabendo o registro da guitarra do competente Roberto Menescal na faixa "Insensatez". Logo gostei demais de "Com Açúcar e Com Afeto", composição de Chico Buarque, mas no rol de pérolas que nos traz, "Luz Negra", do grande Nelson Cavaquinho, ganha uma certa magia transportando-nos a momentos bons e "Estrada do Sol", eleva. Destaco como a melhor canção, e aí me arrisco, mas é mesmo bem pessoal, a faixa "Canta Maria", uma composição da década de 1940 do compositor Ary Barroso. Lindíssima! Mas é só conferir as demais canções, para se ter uma ideia do conjunto da obra. Os ares de Belo Horizonte deviam estar puros, quando da gravação desse trabalho da cantora Fernanda Takai; primoroso.  Toda a gravação foi concebida em casa. Um álbum para compor a discoteca dos mais exigentes, sem sombra de dúvida e estar sempre à mão, para ser tocado e fazer tocar, pois, irretocável. É preciso tê-lo!



Escrito por marcelo pegado às 18h10
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Alerta

Mais essa desgraceira, pois notícias boas parece que não há.

Fazer o quê?

A gripe suína mete medo, eis a verdade. Surgida no México, se alastra e já atinge mais de cento e quarenta pessoas. Máscaras cirúrgicas, precauções e muitas informações, alardeiam o vírus letal, que já está confirmada nos Estados Unidos, Canadá, Espanha e Grã Bretanha. Segundo a Anvisa, o Brasil não deve temer a gripe suína, pois bem. O guru Barack Hussein Obama diz que não há motivo para alarme. Fico imaginando, que talvez pense que uma mortezinha ali, outra acolá, não tenha mesmo muita importância. Principalmente se o a vítima for um "pobre coitado", não? Como se diz, é só enterrar. Fico pensando em quem e no quê acreditar diante dessa possível pandemia, quando vejo lances de reportagens com as "autoridades" imbuídas no alto de sua magnitude afirmarem que tudo está "sob controle" e tergiversarem sobre o vírus: "No momento, há quatro classes principais de vírus de gripe suína do tipo A são H1N1, H1N2, H3N2 e H3N1", assombroso? Mas garantem que propriamente a carne de porco não traz problemas quanto ao consumo. Agora, cada espirro um susto, cada tosse um certo pânico. Um amigo, lembrado por mim da pandemia, tratou de dispensar do seu sanduíche o presunto, na dúvida se era de porco ou de peru: "Melhor não arriscar", disse com ar desconfiado. Quando vejo as fotos e imagens das inúmeras pessoas usando máscaras, umas brancas, outras em tonalidade azul, penso logo na possibilidade de termos que usá-las. Aqui em Natal, como tudo termina quase sempre numa grande "festa", acredito que até oficinas de roupas iriam oferecer seus serviços para "reformar" as máscaras, deixando-as mais personalizadas, diminuindo-as, talvez aplicando alguns detalhes, com toque mais modernoso como os famigerados "abadás" à época do tanto quanto Carnatal. Pronto. E aí era só desfilar pelos shoppings, trabalho e afins. Seria uma farra! E quem sabe uma festa temática com direito a banda baiana e DJ não fosse uma boa pedida nos finais de semana, quem sabe? Mas cada um na sua, sem apertos de mão, sem abraços, sem beijinhos, somente "tirando o pé do chão, galera!". "Misericórdia!", diria uma amiga. Seria mesmo a constatação do fim. Leio que a bolsa cai 2%, afetando as ações dos frigoríferos. "O alerta, que estava na nível três, subiu para fase 4, caracterizado pela transmissão de humano a humano espalhada em nível de comunidades", relata matéria do Portal G1. Isso levando-se em conta que a escala vai de zero a seis na sua significância. Mas calma, pois "tudo normal". O presidente Lula afirma do alto da sua "sabedoria/gracejo" que "Graças a Deus, até agora, não chegou no Brasil e eu espero que não chegue no Brasil nunca", afirmou, fazendo o sinal da cruz. Uns fazem o sinal da cruz ao ver Lula, outros, esconjuram. Ainda não falei com mamãe sobre a gripe suína mas já vi que ela está assistindo ao noticiário atenta, apurando a audição à frente da televisão, conferindo as últimas notícias. Mamãe já deve estar meio assustada e tenho até espirrado baixo para que ela não escute e se impressione à toa. Ontem a vi se benzendo, já era tarde. Mas acho que foi mesmo após suas orações diárias, só. Seria uma epidemia global? Acompanhemos então o desenrolar de mais essa desgraceira, pois notícias boas parece que não há. Fazer o quê?



Escrito por marcelo pegado às 20h56
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Certidão

 

"Não quero tão cedo ver essa minha certidão de nascimento"

Leio que o governo vai, já  a partir da próxima semana, adotar um novo modelo de certidão de nascimento, que será padronizada. Os dados são desalentadores quando se trata do registro de crianças brasileiras, onde 11% dessas com menos de um ano têm registro de nascimento. Os porcentuais aumentam quando se trata da Amazônia Legal, 17%, e na região  nordeste, onde de cada 100 nascidos, 22 ficam sem registro. "Filhos de goiamum"? Mas a iniciativa é louvável e o governo pretende interligar cartórios criando um banco de dados que visa identificar regiões que precisam fazer mutirões para registrar crianças. Segue o Brasil, então. Ontem à noite fiquei veio-me a pergunta: "Será que ainda tenho a minha certidão de nascimento?". Num daqueles estalos que nos deixam intrigados, fui à procura da mesma, em caixas, pastas, gavetas e afins. Suei, demorando encontrá-la, mas, enfim, lá estava ela, a minha certidão, bem guardada, já muito amarelada e com dobras profundas como cicratizes fossem, escrita a máquina de escrever, tecladas certamente por um escrivão dedicado, imaginei. Contemplei a certidão e conferi o que havia escrito nela, lendo minuciosamente, o que me fez lembrar dos nomes dos meus avós maternos e um paterno que não conheci, como numa viagem no tempo me transportasse. Consta em "observação" que "O registro foi feito em data de hoje, no prazo legal, tendo sido declarante o pai do registrado. O referido é verdade e dou fé", esclarece, seguindo-se a data de 21 de setembro de 1964, assinaturas e carimbos. Tentei imaginar qual o semblante de papai naquele momento. E lá se vão quase quarenta e cinco anos; minha idade! Sou registrado, pensei. Logo tratei de dobrar a certidão bem de acordo com os sulcos profundos marcados no amarelado papel e guardá-la na mesma caixinha branca onde junto outros tantos documentos pareciam jazir. Foi mesmo como enterrar um passado, a sensação. Mas ora, era aquilo somente um papel amarelado, não? Só sei que invadiu-me essa estranheza e alguns pensamentos vieram à tona, mas resolvi deixá-los de lado. Afinal, tenho minha certidão de nascimento e, melhor acreditar que assim, existo na plenitude. Quanto à essência e outras ponderações, fico com a metafísica.  O sono não veio logo, apesar do avançado da hora, muitos livros estavam à espreita. Ainda pude ler de relance: "Cecília Meireles Mar Absoluto/Retarato Natural". Resolvi então apagar a luz e ficar em silêncio só com a televisão e seu som baixinho. Na tela imagens se alternavam sem sentido para mim. No outro quarto, mamãe dormia, certamente sonhando. Veio-me a sensação de vazio. "Não quero tão cedo ver essa minha certidão de nascimento", balbuciei, com a imagem amarelada do papel como assombro. Que estranho! Mas a iniciativa do governo, não esqueçamos, é louvável. E a noite/madrugada foi longa!



Escrito por marcelo pegado às 16h45
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Chove

 

E esperar um outro dia chegar, pois desde ontem,

chove muito!

Desde ontem chove muito. A cidade torna-se caótica e, numa verdadeira aflição, tudo parece andar de mal a pior: trânsito complicado, transportes coletivos abarrotados, grandes "lagoas" que se formam em lugares já sabidos, outras, são "novas" e haja paciência, ou angústa para quem tem de se locomover, chegar a algum lugar. Muitos molhados, vão se secar ao longo do dia de trabalho, outros, que podem, não saem e ficam sob os cobertores. Hoje não ouvi os bem-te-vis anunciando uma nova manhã. O cachorrinho aqui de casa preferiu acolher-se no tapete da sala, enroscado e com sono. O dia cinza traz tédio para uns. Minha irmã comentou que durante sua ida à europa, não viu o sol por lá por mais de quarenta dias. Era mesmo tudo cinza e com ar triste. Uma amiga que morou por alguns longos anos por lá, me fala sempre da tendência à tristeza e um certo desânimo estampando nas pessoas, apesar de já estarem acostumadas, parece algo impregnado. "Quem tem tendência a se entediar, fuja da europa!", afirma. Acho que vou ficar por aqui mesmo, desistindo do sonho de visitar o velho continente. Vou preferir me entediar só algumas poucas vezes, quando se tratar de dias cinzas. Assim, quem sabe, serei mais alegre...  Lembro-me  de na infância, em dias assim chuvosos, correr para a grande janela do quarto e ficar olhando o jardim de roseiras alagado. Imaginava ser um grande lago e arriscava às vezes, jogar um barquinho desses de papel para vê-lo ir deslizando por entre as plantas. Acho que ali iam também meus pensamentos, quais fossem eles. Hoje a grande janela já não mais há e me arvoro somente a pôr a mão pela janela do quarto para sentir a água fria da chuva. Nesses dias de muita água, recordo-me também, que havia uma vizinha que gostava muito de tomar banho de chuva. E saía pelas ruas à procura das biqueiras das casas, as maiores e parecia se esbaldar. Hoje acho que como eu, só contempla a chuva de sua janela, talvez sozinha e agasalhada, pois passaram-se os anos. Uma coisa que muito gostava de fazer, era caminhar nos dias chuvosos abrigado pelo guarda-chuva. Sempre gostei de guarda-chuvas, diferentemente da maioria das pessoas que conheço. Saía até à casa de um amigo no centro, fazia-lhe uma visita e voltava pelas ruas quase sempre vazias, naquele tempo, à tarde. Mamãe ontem confessou que  não gosta de dias chuvosos, pois "Atrapalha, meu filho". Sempre muito ativa, com seus inúmeros afazeres, prefere que chova só à noite. Aí pode ser bom. Hoje estou "preso" aqui no quarto e contemplo pela janela o cinza do dia. Precavido, ponho-me a escrever, assim aleatoriamente, pois tinha de ir à Ribeira, mas como alagada está, fiquei esperando "melhorar" a situação. Eterna situação, pois. E a segunda está completa! Agora é só procurar ler Borges ou não lê-lo. Eis a questão. A televisão ligada sem som, passa as imagens batidas dos programas matinais. E hoje resolvi não "zapear", para não ter que me deparar com um papagaio idiota e uma apresentadora, idem. A televisão ficou mesmo no canal cultura, sem som. O dia cinza e as plantas com seus galhos cabisbaixos, a janela grande que já não há, as roseiras do jardim que perduram na memória, o barquinho de papel que levava meus pensamentos, a vizinha que se esbaldava nas biqueiras, as minha andanças pela chuva ao centro, o tédio desses dias cinzas, o sempre cinza europeu, a televisão que nada acrescenta. Não tem jeito. É buscar ler ou não Borges, esquecer que hoje é segunda e esperar um outro dia chegar, pois desde ontem, chove muito!



Escrito por marcelo pegado às 09h10
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Entender

E dá para entender? Ganhei até um "ovo de chocolate",

imaginem só!

Outro dia foi a "Páscoa". Coelhinhos, ovos de chocolate e peixe. Jejum, orações e símbolos. Quando vi, estava eu dentro de uma grande loja de departamentos, bem no meio da seção que exibia as centenas de "ovos de chocolate", pendurados como roupas no varal, empilhados nas gôndolas, por todos os lados, enfim. Muitas crianças, jovens e adultos se engalfinhavam como que enebriados, afinal aquele apelo visual multicolorido parecia irresistível aos olhos e além do mais, era "Páscoa". As crianças, lógico, iam direto aos "ovos" maiores, os jovens, comparando muito os tamanhos e preços e os adultos controlando a meninada, convencendo para que se conformassem com um meio termo, no que se referia ao tamanho dos chocolates, afinal os preços.... Fazer o quê? Logo fui me esquivando daquele lugar, saindo como que aturdido, buscando chegar ao corredor fora do estabelecimento. A mim não me interessava aqueles chocolates todos. Assisti a uma reportagem na mesma época pascal, em que muitas pessoas acorriam aos locais de venda de peixe e crustáceos. Afinal não se haveria de comer carne vermelha. E haja "orientações" sobre como comprar o melhor pescado: "observe se os olhos do peixe não estão opacos e se ele está consistente", veja se as guelras estão vermelhas". Pois bem, assim, tudo certo. Receitas econômicas como fórmulas mágicas e a qualidade do bacalhau. Mais uma vez, vi que muitas pessoas disputavam nos boxes de pontos de venda, o seu peixe da "semana santa". No entanto, nos supermercados  havia peixe suficiente e de qualidade variada para se comprar, mas parece que a maioria prefere a balbúrdia dos locais de vendas tradicionais. Tradição? Não sei. Comi um bom peixe na "semana santa". Havia um vizinho que lembrei-me, toda a sua vida só comeu peixe, quando não, só carne branca. E a isso atribuia longevidade, esbaldando-se na vida até os seus noventa e tantos anos. Logo um câncer o levou e fiquei pensando à época, no paradoxo de uma vida tão "equilibrada", frugal e uma doença tão devastadora. Mas, como ninguém vive para lajedo... E é bem verdade que ele chegou mesmo longe. Era ele quem dizia em tom de blague:"É meu amigo, quem nunca morreu está morrendo agora!". Ainda hoje gosto dessa gozação, apesar de algumas pessoas demorarem um pouco para entender quando falo. Às vezes imprimo muita seriedade no que falo, mesmo que em tom de brincadeira. Outro dia foi "Páscoa" e, confesso, comi muito chocolate esse ano. Ganhei "ovo de Páscoa" e tudo mais. Uma outra loja especializada em chocolates, controlava a entrada e a saída dos fregueses. Saia um e entrava outro. Lucro certo, para felicidade do comércio, não? Ontem passei por essa mesma loja e constatei que, solitárias, estavam as mocinhas à espera de alguns poucos compradores. Tudo volta ao normal, então. Ainda olho para o "ovo de Páscoa" que ganhei, posto em cima da estante, para mim, sem significado nenhum. Procurarei tradução de carinho para justificar, só.  Um amigo meu tem ojeriza a peixe e fala sempre que "sua relação com o pescado é complicada". A muito custo engoliu alguns pedaços na "semana santa". Olhando a cena, fiquei meio intrigado e resolvi perguntar por que  degustava, já que não gostava, o que me respondeu: "porque é semana santa...". Mamãe guardou peixe para mim e comi a iguaria deliciosa. "É um peixe especial, meu filho!", disse-me, antecipando para que eu comesse, já que tenho um fastio grande. Não vi o sentido da "santidade" no ato de comer, mas talvez retrate um puro carinho. As mães sempre dispensam muito carinho. "Só as mães são felizes". Quanto ao meu ceticismo, ah esse está cada vez mais arraigado. Já estou vendo do que se trata para tratar, pois acho que como ele está impregnado em quase tudo, já é doença. Tem que tratar. Mas, contudo, com ceticismo e sem respostas plausíveis para muitas coisas, outro dia foi "Páscoa". E dá para entender? Ganhei até um "ovo de chocolate", imaginem só!

* Serve para refletir:

"Cometi o pior dos pecados que um homem pode cometer. Não fui feliz".
( JORGE LUIS BORGES )



Escrito por marcelo pegado às 20h08
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Lados

Uma certeza: sempre haverá os "dois lados",

concordam?

Sempre haverá de existir os dois lados. Creio que sim, pois senão, seria tudo muito igual, cansativo, no mínimo. Nunca entendi muito bem as palestras ditas motivacionais, mas pelo que pude perceber observando a grande maioria das pessoas, durante e depois, elas, as palestras, servem para alguma coisa, sim. Nem que seja para passar por alguns longos instantes uma sensação de que alguma coisa vale a pena em algum momento de nossas vidas. Pode ser. E o agente motivacional,  se desdobra em lugares-comuns, jargões, estripulias e assim leva a platéia a participar, mesmo os mais recatados que, desconfiados e quase sempre na retaguarda, como que protegidos, sem graça, se arvoram a bater palmas, ou melhor, "energia", com total desconforto e no máximo, esboça um sorriso amarelo no rosto, sempre se esquivando de uma proximidade. Música, vídeos, regidos por uma voz sempre altiva e quase que sem intervalos, como rajada de metralhadora, indagando e respondendo, induzindo a resposta, num ascendente de otimismo que circunstancialmente vai perdendo força já do meio para o fim. Mas há quem goste e participe, às vezes, de maneira mais que efusiva, e canta, e dança, e fala, e sorrir, e bate palmas, e reage num mimetismo tamanho. Uma senhora que estava logo a minha frente dava sopapos como em transe. Um senhor batia palmas descompassadas e as mocinhas cantavam a plenos pulmões. Imagino aquele auditório visto de um outro plano, de trás pra frente, onde não veríamos rostos e só o "macaqueado" daquela gente toda. E eu lá. A coalhada que havia comido logo cedo me vinha à garganta, misturada ao gosto do café. A manhã parecia não mais ter fim e tive vontade de sumir, mas aguentei firme. Onde diabos estava o meu "lado esquerdo" que não reagia, fazendo-me de súbito levantar daquela poltrona e sair do auditório em disparada? Talvez a letargia que me acometera, fosse mesmo a resposta àquilo tudo. Mas, como disse, tem de haver os dois lados, não? Há quem tenha muita espiritualidade, há quem não; há quem acredite em Deus, há quem não; há quem goste de café da manhã, há quem não; há quem se empolgue com uma palestra motivacional, por algum "motivo", mas há quem não. Um conhecido desejava para o seu desafeto, não a morte propriamente, como ápice de seu ódio, mas sim destilava um ódio nunca por mim visto, nas suas palavras. Seu rosto desfigurava e esbravejava: "Não quero que ele (desafeto) morra. Quero que num acidente, ele fique tetraplégico, para eu poder olhar todos os dias nos seus olhos e sorrir!". Assombroso? Mas é verdade. Há quem se desmancha em caridade e pede muito mais para um desconhecido enfermo do que para si mesmo. Há quem se esvaia em amor, um amor gratuito todas as horas, todos os dias, naturalmente. Daí, ser necessário e patente o contrário. Haverá os dois lados, sim. O motivacional, como a própria etimologia da palavra encerra, serviu para deixar tudo mais elevado, mesmo que as pessoas não levem muito adiante aquelas mensagens todas em suas trajetórias de vida. Hoje mesmo, um dia depois do "motivacional", já vi que uma mocinha, naquela ocasião uma das mais eufóricas, estava com "enxaqueca" e com uma "cara" enjoadíssima, de abuso total. Mas tem que haver os dois lados. Ou vários momentos. Só que me recordo que o conhecido que falava na querença da desgraça do seu desafeto, anos a fio sem pestanejar, reiterava, cada vez com mais veemência, como se um novo instante fosse, o seu ódio nutrido. Porém os caridosos, devem a cada dia se superar na sua bondade. Por que não? Mas há de termos uma certeza: sempre haverá os "dois lados", concordam?



Escrito por marcelo pegado às 23h07
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